Joe Klamar / AFP
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Ex-chanceler vence eleições na Áustria, mas com quem irá se aliar para governar?

Sebastian Kurz venceu as legislativas de domingo e agora terá de buscar aliados para formar o novo governo

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 09h56

VIENA - O ex-chanceler da Áustria Sebastian Kurz venceu as eleições que ele mesmo convocou quatro meses após o colapso de seu governo em razão de um escândalo envolvendo seu parceiro de coalizão. Mas os resultados da votação de domingo levantaram questionamentos sobre se ele fará novamente um acordo com a extrema direita para formar um governo ou se ele se virará para a esquerda.

Nesta segunda-feira, 30, Kurz inicia sua busca por sócios para governar o país, respaldado pela ampla vitória obtida nas eleições legislativas. Os 38% de votos obtidos por ele, de acordo com resultados preliminares, representam uma considerável revanche para o líder do Partido Popular Austríaco (OVP), quatro meses após a queda de sua coalizão com o Partido da Liberdade da Áustria (FPO), de extrema direita.

Mas, apesar de ter ampliado sua vantagem em relação aos rivais e de aumentar em quase seis pontos o resultado de seu partido em comparação com 2017, Kurz não tem condições de governar sozinho. 

"Naturalmente vamos conversar com todos os partidos (...) para ver com quais podemos formar o governo", disse ele, antes de expressar o temor de que desta vez "será mais complicado" que há dois anos.

‘Perdedor das eleições’

Nenhum partido parece disposto a estender a mão. No domingo à noite, o FPO, que governou ao lado dos conservadores de Kurz durante 18 meses, anunciou a intenção de atuar como oposição, após um resultado nas urnas pior do que o previsto, com cerca de 17% dos votos.

O partido, anti-islã e anti-imigração, que nos últimos dias de campanha enfrentou novas suspeitas de fraude, perdeu quase 16% dos votos na comparação com as eleições anteriores e "não está em posição" de governar, afirmou seu novo líder, Norbert Hofer.

"O FPO é o grande perdedor das eleições" destacou o cientista político Peter Filzmaier. Há dois anos, a coalizão entre direita e extrema direita na Áustria foi apresentada como um modelo da ascensão do nacionalismo.

Crescimento da esquerda

O Partido Verde (esquerda) se beneficiou da mobilização internacional a favor do clima e pode ser considerado o grande vencedor das legislativas, com 14% dos votos, o que permitiria formar a maioria governamental com Sebastian Kurz.

O líder dos Verdes, Werner Kogler, disse que seu partido se concentraria em cumprir as promessas feitas durante a campanha para reverter as políticas do governo anterior. “É preciso haver uma mudança radical” nas políticas de meio ambiente e mudanças climáticas e de combate à corrupção, afirmou Kogler à emissora pública ORF.

Muitos austríacos votaram no Partido Verde porque não gostam de Kurz, o que tornaria as negociações para uma coalizão longas e difíceis, de acordo com Markus Wagner, professor de Ciência Política na Universidade de Viena.

“Uma união com os Verdes seria muito atrativa para Kurz porque eles contam com muitos eleitores jovens”, explica Wagner. “Mas em termos de políticas, há uma grande lacuna. Não acho que seja impossível, mas é difícil prever agora o que irá acontecer.”

União improvável

Uma coalizão do OVP com os Socialistas (centro-esquerda) também seria possível numericamente, mas é improvável e não desejado por nenhum dos lados.

Os Socialistas tiveram seu pior resultado desde 1945, obtendo 21,8% dos votos. A decisão do partido de convocar um voto de confiança contra Kurz em maio, inaugurando um governo interino, levou a uma relação de desconforto entre centro-direita e centro-esquerda, o que, segundo analistas, tornaria uma coalizão entre os dois improvável.

“Fomos tirados do cargo em maio, e foram quatro meses difíceis, mas hoje o povo nos fez retornar ao gabinete”, disse Kurz em uma sala com apoiadores em Viena, pouco após o anúncio dos primeiros resultados, e agradeceu o apoio e confiança. Contudo, ele não deu indicações de como pretende formar o governo.

Tráfico de influência

Enquanto o escândalo - desencadeado por um vídeo que revela que o FPO estaria envolvido em tráfico de influência com a Rússia - não pareceu ter diminuído o apelo de Kurz, ele prejudicou seriamente o apoio dos eleitores ao seu antigo parceiro de coalizão. Os Verdes, por outro lado, viram seu apoio mais que dobrar.

O vídeo mostra o ex-líder do partido e ex-vice-chanceler Heinz-Christian Strache negociando uma troca de favores com uma mulher quer se dizia ser sobrinha de um oligarca russo.

Na semana passada, promotores começaram a investigar Strache por suspeita de desvio de fundos do partido, um decisão que pode causar mais dor de cabeça à sigla e fazer Kurz pensar duas vezes antes de unir forças com o grupo de novo.

E agora?

Somente um terço de todos os eleitores que apoiaram Kurz gostariam de vê-lo retornar ao poder com a extrema direita, segundo analistas, mas apenas um quarto queria que ele liderasse com os Verdes.

Kurz já indicou que está aberto a se unir novamente ao FPO, o que alguns analistas afirmam ser um ajuste político mais próximo da realidade do que as outras opções.

“Com base nas análises de questões-chave, há 80% de convergência entre o OVP e o FPO, enquanto o OVP e os Verdes concordam em apenas 20% das questões”, afirma Peter Filzmaier, professor de Política na Danube University Krems.

Mas com base nos resultados dos outros partidos nas urnas, Kurz pode optar por olhar para a esquerda em uma tentativa de apelar pelo voto dos mais jovens, que deram apoio aos Verdes.

“Depois do que vimos hoje, uma coalizão entre os conservadores e a extrema direita se tornou menos possível e uma coalizão entre os conservadores e os Verdes, mais provável”, diz Filzmaier.

Analistas temem que uma nova coalizão com a extrema direita enfraqueça as instituições democráticas do país. / NYT e AFP

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