Al Drago/The New York Times
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Ex-diretor da CIA diz que Rússia interferiu nas eleições

Em depoimento no Congresso, John Brennan disse que sua agência alertou o FBI sobre os contatos entre russos e a campanha de Trump

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2017 | 17h37

O ex-diretor da CIA John Brennan disse nesta terça-feira em depoimento no Congresso americano que houve contatos entre autoridades russas e integrantes da campanha de Donald Trump durante a corrida presidencial de 2016 e a agência alertou o FBI sobre esses contatos. Brennan disse não saber se as comunicações eram parte de uma conspiração para influenciar o resultado da disputa e defendeu que o assunto seja investigado.

A decisão de Trump de compartilhar informações confidenciais no Salão Oval com dois representantes do governo russo, na semana passada, pode ter violado dois protocolos que regem essa prática dentro do governo, afirmou o ex-diretor da CIA. 

 

Segundo ele, esse tipo de dado não costuma ser entregue a visitantes estrangeiros, mas sim em canais específicos entre os serviços de inteligência dos países. Caso haja a determinação de compartilhar a informação, a agência que a forneceu deve ser consultada para assegurar que a linguagem não revelará fontes ou métodos de atuação de espiões.

Ao relatar aos russos dados sobre planos do Estado Islâmico, Trump pode ter comprometido a fonte da informação, obtida pelos serviços de inteligência de Israel e repassada aos EUA. Ao mesmo tempo, ele classificou de “chocante” o vazamento de dados confidenciais para a imprensa e defendeu a punição dos responsáveis.

 

Em depoimento no Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados, Brennan disse ter ficado preocupado com a ofensiva de integrantes do governo russo para cooptar cidadãos americanos durante a eleição e alertou o FBI sobre o movimento. “Eu sei o que os russos tentam fazer”, afirmou o ex-diretor da CIA. “Eles tentam subornar indivíduos e eles tentam conquistar indivíduos, até mesmo pessoas nos EUA, para agir em seu nome de maneira consciente ou inconsciente.”

A Casa Branca deu uma interpretação positiva às declarações de Brennan. “O depoimento desta manhã confirma o que estamos dizendo o tempo todo: que, apesar de uma investigação de um ano, ainda não há nenhuma evidência de qualquer conspiração da Rússia na campanha de Trump, que o presidente nunca colocou em risco fontes de inteligência e mesmo o diretor da CIA de Obama acredita que o vazamento de informação confidencial é ‘chocante’ e os responsáveis devem ser ‘identificados’”, disse nota da presidência.

Há pouco mais de duas semanas, o então diretor do FBI, James Comey, foi demitido por Trump em razão da investigação sobre contatos entre integrantes da campanha do presidente e a Rússia.

Na segunda-feira, o jornal Washington Post publicou reportagem segundo a qual Trump teria pressionado, sem sucesso, dois outros dirigentes da comunidade de inteligência a rejeitarem publicamente a investigação do FBI: o diretor Nacional de Inteligência, Dan Coats, e o chefe da Agência de Segurança Nacional, Mike Rogers. Questionado sobre o assunto em depoimento no Senado ontem, Coats disse que não seria “apropriado” falar sobre suas conversas privadas com o presidente.

Poucos dias depois da demissão de Comey, o Departamento de Justiça nomeou seu antecessor no FBI, Robert Mueller, para comandar a investigação que Trump gostaria de ver encerrada. A decisão foi tomada pelo subsecretário da pasta, Rod Rosenstein, porque o titular, Jeff Sessions, declarou-se impedido para atuar no caso sobre a Rússia. Mueller terá ampla liberdade para convocar pessoas a depor, requerer documentos e produzir outras provas. 

 

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