Venezuelan Presidential Press Office via The New York Times
Venezuelan Presidential Press Office via The New York Times

Ex-chefe de inteligência da Venezuela rompe com Nicolás Maduro

General Hugo Carvajal, uma das figuras mais proeminentes do chavismo, chamou presidente venezuelano de ‘ditador’ e ‘corrupto’

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2019 | 23h23

CARACAS - Hugo Carvajal, ex-chefe de inteligência de Hugo Chávez, uma das figuras mais proeminentes do chavismo, anunciou nesta quinta-feira, 21, que abandonou o presidente Nicolás Maduro. Carvajal, que já ocupou vários cargos no governo venezuelano, chamou Maduro de “ditador”, “corrupto” e o acusou de ter ligações com o Hezbollah.

Em entrevista ao New York Times, o ex-chefe de inteligência, de 58 anos, que é deputado pelo Partido Socialista Unido da Venezuela, pediu que outros militares rompam com o presidente antes do confronto anunciado para sábado, quando a oposição pretende forçar a entrada de ajuda humanitária na Venezuela. “Foi mais do que suficiente”, disse Carvajal, em vídeo dirigido a Maduro postado nesta quinta-feira, 21.

"Você matou centenas de jovens nas ruas que reivindicavam os direitos que você roubou. Isso sem contar os mortos por falta de remédios e de segurança.”

A ruptura de alguém tão ligado ao regime acrescenta uma pressão inesperada ao presidente. As acusações de Carvajal também adicionam novos fatos ao drama que se desdobra: a disposição de fornecer provas criminais contra Maduro, caso ele caia. Nesta quinta-feira, 21, Carvajal deu uma arma valiosa para a oposição, que por anos vem dizendo que o círculo de pessoas próximas ao presidente tem ligações com narcotraficantes e milicianos. 

Carvajal deixou o serviço de inteligência em 2012, depois de ter servido quase 10 anos ao chavismo. Em entrevista ao Times, ele esmiuçou os bastidores de um governo cuja alta cúpula está envolvida com o narcotráfico e corrupção. Entre os acusados estão Néstor Reverol, ministro do Interior, Tareck El Aissami, ex-vice-presidente.

Na condição de ex-czar antidrogas de Chávez, Carvajal disse que os chavistas incumbidos de combater o narcotráfico são aqueles que traficam as drogas. Muitos nomes conhecidos em Caracas são investigados pelos EUA – inclusive Carvajal, que escapou da extradição em 2014, quando foi preso em Aruba sob acusação de narcotráfico e sancionado pelo Departamento do Tesouro americano.

Um dos acusados por Carvajal é Néstor Reverol, ministro do Interior de Maduro. Ex-comandante da Guarda Nacional Bolivariana, ele foi indiciado nos EUA por receber propina de narcotraficantes para caguetar a posição de agentes americanos no Caribe. Na época, Reverol era chefe do Escritório Nacional Antidrogas (ONA).

Em 2012, segundo Carvajal, uma batida policial em uma fazenda apreendeu um avião com 400 quilos de cocaína pertencentes ao traficante Walid Makled. Pouco depois, ele recebeu um telefonema de Caracas dizendo que os militares haviam chegado à conclusão que não havia droga nenhuma na aeronave – o que ele interpretou como uma tentativa de devolver a cocaína para Makled. 

Carvajal culpou Reverol e El Aissami, que foi vice-presidente de Maduro. Os dois, segundo ele, aceitavam propina de narcotraficantes para deixar a cocaína passar pela Venezuela. 

O ex-chavista também ligou El Aissami ao Hezbollah, grupo xiita libanês considerado uma organização terrorista nos EUA. O ex-vice-presidente da Venezuela, que em 2009 ocupava o cargo de ministro do Interior de Chávez, esteve na Síria com a desculpa de visitar amigos e parentes. De acordo com Carvajal, ele se reuniu com membros do Hezbollah e propôs um intercâmbio entre a milícia e as Farc. 

O agente do Hezbollah entregou três fuzis a El Aissami, que deu um deles para Carvajal. Durante a entrevista ao Times, ele mostrou a arma e seu passaporte, com carimbos de entrada no Irã e na Síria durante as datas relatadas.

Ao Times, Carvajal também contou que se envolveu em uma disputa entre o presidente e o bilionário Raúl Gorrín. Maduro foi eleito em 2013, após a morte de Chávez, e estava irritado com a cobertura que recebia da rede Globovisión, então propriedade de Gorrín.

Maduro, de acordo com Carvajal, quis usar informações da agência de inteligência, chefiada por Carvajal, para pressionar Gorrín a mudar a linha editorial da TV. Entre as informações comprometedoras estariam subornos que o empresário teria pago a funcionários do governo. 

Segundo Carvajal, Gorrín ofereceu US$ 10 milhões para engavetar a investigação. Em seguida, a Globovisión mudou sua linha editorial e passou a apoiar Maduro. Hoje, Gorrín é acusado pelos EUA de lavagem de dinheiro e tentativa de suborno de funcionários públicos. / NYT

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