Josh Ritchie/The Washington Post
Josh Ritchie/The Washington Post

O elo chavista com Cuba, o Hezbollah e a Guerrilha

Manuel Cristopher Figuera, que participou de levante fracassado, diz que guerrilha colombiana atua em áreas de mineração e promete defender chavista em caso de invasão; movimento xiita teria 'negócios ilícitos para financiar operações' no Oriente Médio

Anthony Faiola, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2019 | 11h24

BOGOTÁ - Em um palácio cheio de traidores e ladrões, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, contava com a lealdade de uma pessoa: o general Manuel Figuera. Quando o líder opositor Juan Guaidó anunciou sua rebelião, em 30 de abril, Figuera surgiu como conspirador, o que foi uma surpresa. E, quando a rebelião fracassou, para salvar sua pele, ele recorreu a agentes dos Estados Unidos na Colômbia.

Após dois meses escondido, Figuera chegou aos EUA na segunda-feira, armado de acusações contra o chavismo. Negócios ilícitos com ouro, células do Hezbollah que operam na Venezuela e a influência cubana em Caracas. Ele não lamenta ter se voltado contra o chefe. “Estou orgulhoso”, disse o general, na semana passada, em um quarto de hotel em Bogotá. “Neste momento, o regime venceu. Mas isso pode mudar.”

Em Caracas, na noite de 28 de março, um grupo de conspiradores dispostos a derrubar Maduro montou uma ação arriscada. Cesar Omaña, empresário de 39 anos, entrou na sede do Serviço Secreto Bolivariano (Sebin) para recrutá-lo. Omaña, que mora em Miami, vivia entre dois mundos. Era amigo das irmãs de Hugo Chávez e de membros do alto escalão do governo, mas também da oposição.

Ao contrário de outros empresários envolvidos no complô, ele não foi acusado de crimes nem atingido por sanções americanas. Mas estava desesperado com o colapso do país. Em novembro, Omaña manteve contato com autoridades dos EUA. Ele também era amigo do líder da oposição Leopoldo López – então o mais famoso preso político da Venezuela e mentor de Guaidó.

Figuera estava no radar dos americanos. As sanções haviam congelado todos os ativos venezuelanos nos EUA e as autoridades americanas disseram que suspenderiam as sanções de pessoas leais a Maduro que se rebelassem contra ele.

“Disse a Omaña que estava pronto para derrubar Maduro”, afirmou Figuera. “Foi assim que a conspiração começou.” Na verdade, outro grupo já havia entrado em ação. Em fevereiro, vários empresários, alvos de sanções e acusados de lavagem de dinheiro, apresentaram um plano para os americanos. A ideia era cooptar autoridades leais a Maduro, incluindo o presidente do Tribunal Supremo de Justiça, Maikel Moreno.

Eles atuavam como interlocutores entre o governo de Donald Trump e o chavismo e estavam ansiosos para resolver sua situação nos EUA, para onde enviavam os filhos para estudar. Os americanos prometeram levantar as restrições de viagens e o congelamento de ativos em troca de apoio.

O plano dos empresários era o seguinte: Moreno, presidente do TSJ, emitiria uma decisão restaurando o poder da Assembleia Nacional, controlada pela oposição – e Maduro seria obrigado a se afastar. Moreno manteria a presidência do TSJ. Mas Figuera disse ter interceptado conversas no WhatsApp indicando que Moreno tinha exigido US$ 100 milhões para cumprir sua parte.

Figuera disse que, após seu encontro com Omaña, sentiu que havia alguma esperança. Ele havia trabalhado durante anos com a inteligência militar. Mas sua nova função como chefe do Sebin abrira seus olhos para a extensão da podridão no governo. “Jamais vi a situação do país e a corrupção do governo tão de perto como nos meus últimos seis meses. Rapidamente, vi que Maduro chefia uma empresa criminosa, com a própria família envolvida.”

O general começou a investigar uma companhia fundada pelo filho de 29 anos de Maduro, Nicolás Maduro Guerra. A empresa assumiu o monopólio de compra de ouro de pequenos mineradores, que era revendido a preços altos para o Banco Central. Ele quis levar a informação a Maduro, mas foi dissuadido por um assessor do presidente.

Figuera disse ter descoberto um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o então vice-presidente, Tareck El Aissami, hoje ministro da Indústria, indiciado nos EUA por tráfico de droga. Aissami nega qualquer crime. Mas o general diz ter obtido informações de que membros do Exército de Libertação Nacional (ELN), guerrilha colombiana, atuam sob proteção do governo.

Figuera disse que o Hezbollah também operava na Venezuela, mantendo atividades ilícitas para financiar operações no Oriente Médio. “Descobri que casos de narcotráfico e guerrilhas não eram investigados.” Mas as atividades de um governo disfuncional dividido em feudos o deixaram desesperado.

Segundo o general, Maduro mantinha de 15 a 20 cubanos para sua proteção pessoal. Alguns eram militares. Três eram assessores especiais que analisavam seus discursos. Figuera se reunia com Maduro várias vezes durante a semana. Quando pediu um encontro privado, teve de fazer a solicitação para Aldo, um cubano. “Fiquei perplexo: ‘O que? Sou o chefe da inteligência e tenho de passar por um cubano para ter uma reunião com o presidente?’”

Quando os apagões paralisaram a Venezuela, em março, Figuera estava reunido com Maduro quando Raúl Castro telefonou. Maduro foi para um canto da sala para conversar com o líder cubano e voltou aliviado. Castro prometera despachar uma equipe de técnicos para resolver o problema. “Raúl é uma espécie de conselheiro de Maduro.”

Em abril, Figuera enviou uma mensagem a Maduro em uma mala trancada. Somente ele e Maduro tinham o código. Ele descreveu a situação do país como deplorável e sugeriu novas eleições. Maduro lhe enviou uma mensagem de texto chamando-o de covarde e derrotista. “Então, percebi que tinha de agir.” Figuera passou a se encontrar com López, que estava na cadeia.

Durante as reuniões, soube da rebelião planejada para maio. Moreno emitiria sentença reinstalando a Assembleia Nacional. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, apoiaria a decisão e obrigaria Maduro a renunciar. Segundo Figuera, todos os que participavam do complô tinham pseudônimos. Ele era “Pantera Negra”. Omaña, “Superman”. Mauricio Claver-Carone, diretor do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, “Comeniños”.

À medida que o dia 1.º de maio se aproximava, a inquietação aumentou. Durante encontro na mansão de Moreno, ele percebeu que o presidente do TSJ estava hesitante. Moreno sugeriu que ele, e não Guaidó, deveria assumir a presidência. No dia 28, Figuera telefonou a Padrino para ter certeza de que o ministro da Defesa ainda estava do lado deles. Padrino “não quis conversar”.

Opositores adiaram a operação por um dia, pois ouviram que Guaidó seria preso. Em 29 de abril, segundo Figuera, os “coletivos” de Maduro preparavam um ataque à manifestação do 1.º de Maio que poderia resultar num banho de sangue.

Nas primeiras horas do dia 30, tudo começou a desmoronar. Guaidó assinou documento libertando López da prisão domiciliar. Guaidó e López fizeram uma aparição triunfante na base militar de La Carlota e apelaram aos militares que se rebelassem. Figuera recebeu um telefonema de seu chefe.

“Maduro estava nervoso. E me perguntou o que estava acontecendo”. Às 6 horas, Maduro ordenou a Figuera que fosse para a prisão Helicoide. “Telefonei para minha mulher e lhe disse que teria de me entregar.” Ela foi para os EUA no dia 1.º de maio e recebeu garantias de que seu marido estaria a salvo se conseguisse chegar à Colômbia.

Figuera, recorrendo a contatos militares, fugiu da Venezuela e chegou à cidade fronteiriça de Cúcuta no dia 2 de maio, onde foi recebido por membros da inteligência colombiana. No dia seguinte, chegou a Bogotá, onde se reuniu com autoridades dos EUA. Uma semana depois, Trump suspendeu as sanções decretadas contra ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.