Ex-comandante da Otan pede a Bush que não envie tropas

O ex-comandante-chefe da Otan Wesley Clark pediu neste domingo, 7, ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, que não envie mais tropas ao Iraque porque, de qualquer forma, elas seriam "insuficientes" e chegariam "tarde demais".Em artigo publicado na edição de hoje do dominical britânico The Independent on Sunday, o general americano, que comandou as tropas da Otan na guerra do Kosovo em 1999, critica duramente a estratégia que Bush pretende seguir e diz que o momento de uma solução militar já passou há muito tempo.As tropas americanas carecem, na sua opinião, de conhecimento da cultura iraquiana e da língua falada no país. Clark acredita que os Estados Unidos "também não têm a legitimação política" necessária para conseguir pacificar a região."A presença de brigadas adicionais em Bagdá permitiria construir mais barreiras, organizar mais patrulhas, realizar mais operações de limpeza de bairros e uma maior presença noturna, mas o quão significativo seria isso tudo?", questionou o militar."Nunca tivemos tropas suficiente no Iraque. No Kosovo, tínhamos 40 mil soldados para uma população de dois milhões, o que equivaleria a um mínimo de 500 mil, no caso do Iraque. Mandar 20 mil parece pouco demais e tarde demais, mesmo somente para Bagdá", ressaltou."Mais perigo"O envio de mais tropas apenas "coloca mais soldados americanos em perigo, mina ainda mais o moral das Forças Armadas e há o risco de que elementos da população iraquiana se afastem ainda mais", acrescentou Clark.O ex-comandante da Otan duvida inclusive que o emprego de tropas adicionais para "acelerar o treinamento do Exército e da polícia iraquianos" seja de grande utilidade, porque "a lealdade dessas forças demonstrou ser problemática"."A verdade é que, por mais brutal que a luta no Iraque seja para nossas tropas, os problemas subjacentes são políticos", explicou Clark. O militar afirma que "uma limpeza étnica feroz" está sendo realizada "sob os narizes" das tropas americanas."O perigo real de um aumento das tropas é o de diminuir a urgência da necessidade de um esforço político para resolver o conflito", afirmou o general, que qualifica de "fracassada" a visão dos políticos neoconservadores que aconselharam Bush durante estes últimos anos."Muito antes da invasão de 2003, o governo americano enviou sinais de que suas intenções não se limitavam ao Iraque, e de que Síria e Irã seriam seus próximos alvos", lembrou Clark.Esses dois últimos países "tinham motivos para crer que, se os Estados Unidos vencessem no Iraque, se transformariam em breve em alvos", afirmou. "Por isso, não é de estranhar que não tenham poupado esforços para se infiltrarem no Iraque", acrescentou o general.Segundo Clark, os Estados Unidos deveriam fazer uso da "diplomacia direta" para resolver uma série de "problemas inter-relacionados, como a tentativa do Irã de estabelecer sua hegemonia regional ou os conflitos libanês e palestino-israelense", o que exige uma nova visão por parte das autoridades americanas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.