Solly Boussidan
Solly Boussidan

Ex-combatentes kelpers relatam trauma pessoal

Para britânicos que combateram em 1982,cada soldado tem um modo diferente de lidar com horrores da guerra

Solly Boussidan - Especial para o Estado/Port Stanley, Malvinas,

31 Março 2012 | 17h31

PORT STANLEY, MALVINAS - Soldados britânicos que participaram da Guerra das Malvinas relatam uma situação psicológica bastante diferente da enfrentada por jovens recrutas argentinos em 1982. Para os britânicos, lutar nas Malvinas não representava apenas a batalha por um pedaço de terra. "As ilhas são britânicas, não importa que estejamos em outro canto do mundo a milhares de milhas da Grã-Bretanha. Viemos para salvar nossos compatriotas", diz Gary Clement, veterano de guerra, hoje com 56 anos. "O povo das Falklands é britânico. Há pessoas que estão aqui há seis gerações."

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Para o ex-combatente, os argentinos subestimaram as raízes dos kelpers com as ilhas. "Perder ou desistir nunca foi uma opção, pois estávamos lutando por nosso povo", afirma Clement.

O veterano é de Kent, uma região próxima a Londres. Bem-humorado, expansivo e vários quilos acima do peso, ele não corresponde à imagem que se esperaria de alguém que passou pela experiência traumática da guerra como fuzileiro naval da Real Marinha Britânica, uma das mais bem treinadas unidades militares do mundo. Gary serviu por noves meses na década de 70 nas Falklands – dado nome pelos britânicos ao arquipélago.

"Quando a guerra começou, eu tinha 26 anos e já havia servido durante quase uma década. Foi como se os dez anos anteriores tivessem sido uma grande preparação para aquele momento", diz o veterano, que retornou em 1991 para residir nas ilhas após se casar com uma mulher local que conhecera em 1977.

Na opinião do ex-fuzileiro, os soldados argentinos tinham vergonha de servir sob o comando da junta militar, o que contrastava bastante com o orgulho dos britânicos em defender o arquipélago. "Os argentinos detestavam a ditadura militar que controlava seu país e seus comandantes eram péssimos, não inspiravam seus homens", relata.

"Eles tinham excelentes soldados, mas não tinham a mesma motivação e moral que nós. Acreditávamos no que estávamos fazendo."

Curly Elstow, outro veterano do conflito e um dos melhores amigos de Clement, lembra que quando a Argentina atacou as Malvinas havia apenas 60 soldados britânicos nas ilhas. Eles foram capturados e enviados de volta para a Grã-Bretanha após passarem por portos sul-americanos. A primeira coisa que fizeram ao chegar à Europa foi se realistar para serem enviados de volta.

Ele vê a guerra como uma experiência particular, distinta para cada combatente. "Lembro-me claramente do letreiro embaixo dos aviões argentinos e de ver, como em câmera lenta, as bombas sendo despejadas. Você não tem tempo de pensar, são 20 segundos que levam uma eternidade, parece que você está congelado e, de repente, você simplesmente sabe que tem de buscar abrigo", conta.

"Então, vem a explosão. Você nem escuta o barulho. O ar parece ser sugado de seus pulmões e o calor parece te engolir. A pressão comprime você contra o chão. Daí, você percebe que está vivo e bem. A sensação de alívio e de felicidade nesse segundo é algo inexplicável."

Elstow se alistou aos 16 anos de idade. Seu navio chegou às Malvinas na véspera de ele completar 22 anos. Ele passou seu aniversário resgatando os corpos de seus companheiros das águas tormentosas e gélidas do Atlântico Sul.

Demônios. Ao contrário de Clement, Elstow é contido. Fala calmamente, de forma quase plácida. Apesar da seriedade, o sorriso corta seu semblante facilmente quando o companheiro faz algum comentário irônico. Ele só se emociona ao contar sobre seu retorno às Malvinas 18 anos após a guerra.

"Voltei com uma proposta de emprego e com toda a minha família. Levou algum tempo para eu querer retornar a San Carlos, onde há um memorial. Fui com meu filho de 17 anos", conta. "O lugar é calmo e tem uma beleza extrema. Ver tanta paz em um lugar onde passamos por tanto desespero foi algo inimaginável. Foi o que me fez, finalmente, absorver tudo o que passei."

Clement, que preside uma associação de veteranos, explica que cada soldado e cada família de soldado tem seus próprios traumas de guerra. "São como demônios que te atormentam. Você só se livra deles quando finalmente fica em paz com o que ocorreu", diz.

Para Gary, uma das cenas mais marcantes foi a visita de famílias argentinas ao campo de batalhas e cemitério na região da ilha conhecida como Goose Green. "Quase 30 anos após a guerra, foi a primeira vez que uma visita desse tipo ocorreu. Ver o desespero daquelas famílias foi arrasador’, afirma. "Não tinha nada especificamente contra os argentinos nem eles contra mim. Na guerra, você atira para não morrer."

 

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