REUTERS/Carlos Barria
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Ex-conselheiro de Segurança de Trump fez lobby para Turquia

Michael Flynn, afastado do cargo menos de um mês após posse, recebeu em 2016 US$ 530 mil para defender interesses de Ancara nos EUA

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2017 | 20h16

Enquanto recebia relatórios confidenciais do governo americano nos meses que antecederam a eleição presidencial de 2016, o general da reserva Michael Flynn embolsava US$ 530 mil para defender os interesses da Turquia nos EUA. Seu contrato de consultoria foi rescindido no dia 15 de novembro, três dias antes de ele ser nomeado conselheiro de Segurança Nacional do então presidente eleito, Donald Trump.

Flynn foi afastado do cargo menos de um mês depois da posse, por ter mentido sobre conversas telefônicas que teve em dezembro com o embaixador da Rússia em Washington, nas quais discutiu sanções aplicadas ao país pelo governo Barack Obama. A revelação de que ele atuou como “agente estrangeiro” em favor da Turquia agravou a percepção de conflitos de interesse no governo Trump.

Reportagem da Associated Press mostrou que Flynn informou ao Departamento de Justiça na terça-feira que atuou de agosto a novembro como lobista da Turquia. O início do contrato coincidiu com o período em que o governo dos EUA começou a compartilhar briefings de inteligência confidenciais com as campanhas dos dois candidatos à presidência.

Principal assessor de Trump para questões relacionadas à segurança nacional, Flynn esteve presente em grande parte dos encontros em que as informações eram passadas às equipes dos candidatos. Entre suas tarefas, antes e depois da posse, estava orientar o presidente em relação a políticas que poderiam afetar a Turquia. 

No dia 8 de novembro, quando os americanos foram às urnas, o site The Hill publicou artigo de Flynn no qual ele fazia uma defesa incondicional do presidente turco Recep Erdogan e justificava sua repressão a opositores e dissidentes. 

A legislação americana exige que atividades de lobby em favor de governos estrangeiros sejam registradas no Departamento de Justiça. Apesar de ter sido contratado em agosto, Flynn só cumpriu a exigência nesta semana. O argumento para o não cumprimento da formalidade em 2016 foi o de que a consultoria do general, a Flynn Intel Group, foi contratada por uma empresa privada da Turquia, chamada Inovo.

O problema é que a companhia pertence a Ekim Alptekin, empresário ligado a Erdogan que é um dos membros do Conselho de Relações Econômicas Internacionais do país. Na documentação entregue ao Departamento de Justiça, o advogado de Flynn reconheceu que a atuação de seu cliente poderia ser “interpretada como tendo beneficiado principalmente a República da Turquia”.

O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, disse que Trump não tinha conhecimento do trabalho de Flynn como lobista de um governo estrangeiro. Ainda assim, ele disse não ver problemas em sua nomeação como conselheiro.

Flynn está sendo investigado pelo FBI em razão de seus contatos com a Rússia. O principal objetivo é saber se houve um conluio entre integrantes da campanha de Trump e representantes de Moscou para interferir nas eleições e prejudicar a candidatura de Hillary Clinton.

O ex-conselheiro de Segurança Nacional era um dos defensores da necessidade de aproximação entre os EUA e a Rússia para combater o Estado Islâmico. Em 2015, ele foi a Moscou participar de uma cerimônia da RT, a televisão estatal russa, durante a qual se sentou ao lado de Vladimir Putin. “Faço palestras. Essa era na Rússia. Era uma palestra paga”, disse Flynn ao Washington Post em agosto.

O general também era um dos principais representantes do grupo de islamofóbicos do governo. “Estamos enfrentando outro ‘ismo’, como enfrentamos o nazismo, o fascismo, o imperialismo e o comunismo”, declarou em palestra em agosto. “É o islamismo, um câncer insidioso no corpo de 1,7 bilhão de pessoas nesse planeta e ele tem de ser extirpado.”

 

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