Ex-cunhado de Menem depõe hoje sobre tráfico

O ex-cunhado de Carlos Menem, Emir Yoma, prestará depoimento nesta quinta-feira sobre sua eventual liderança de uma organização de tráfico de armas. Yoma foi detido há duas semanas por ordem do juiz federal Jorge Urso e a partir deste interrogatório pode ficar preso, em caráter preventivo. Esta seria a primeira prisão de um integrante do círculo mais íntimo de Menem. Dependendo do depoimento de Yoma, o juiz Urso poderá convocar o próprio ex-presidente para esclarecimentos sobre o caso.Yoma é suspeito de ter organizado o tráfico ilegal de 6.500 toneladas de armas argentinas para a Croácia e Equador entre 1991 e 1995. Nesse período, a Croácia estava sob embargo da ONU por causa da guerra da ex-Iugoslávia. O Equador também estava sob embargo, já que o país enfrentava um conflito de baixa intensidade com o Peru por disputas fronteiriças na Cordilheira do Condor.O agravante no caso equatoriano é que o Peru foi durante um século e meio tradicional aliado militar da Argentina. O escândalo veio à tona em tons de comédia em meados dos anos 90, quando a empresa equatoriana, que havia comprado as armas, protestou que o armamento produzido na Argentina, além de usado, não funcionava.O caso das armas foi um dos principais escândalos de corrupção do governo Menem (1989-1999), já que envolve não somente o ex-cunhado presidencial, mas também todos os integrantes do gabinete que assinaram o decreto que permitiu a venda das armas: o ex-chanceler Guido Di Tella, os ex-ministros da Defesa Oscar Camilión e Ermán González, o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo, o chefe do Exército general Martín Balza e o próprio Menem.O único detido até o momento era Luis Sarlenga, ex-diretor da "Fabricações Militares", a estatal responsável pelo envio de armas em uso do exército argentino. Sarlenga, detido há dois anos, sentiu-se abandonado por seus antigos aliados do governo Menem e incriminou Yoma ao saber recentemente que não sairia da prisão tão cedo.Para complicar a situação de Yoma, sua ex-secretária, Lourdes Di Natale, também afirma que seu antigo chefe está envolvido no caso das armas. Neste caso, o imbróglio é maior ainda, pois Di Natale é ex-esposa do atual advogado de Yoma. O ex-cunhado de Menem também é suspeito em outros grandes casos de corrupção ocorridos na última década: empresas suas teriam participado do caso IBM-Nación, do tráfico de ouro e de propinas nos processos de privatizações.Existe grande expectativa pelas declarações de Yoma, já que se especula que o irmão da polêmica ex-primeira dama Zulema Yoma poderia distribuir sua culpa entre os outros envolvidos para melhorar sua situação jurídica. "Se o gordão falar ", frase freqüente nos bastidores que faz referência ao corpulento ex-cunhado presidencial que, segundo fontes, percorre o círculo de ex-assessores de Menem. "Quanto mais nervoso fica Yoma, mais nervosos ficam todos", dizem."El Turco" estaria preocupado que Yoma se desespere e que, deixando de lado sua personalidade taciturna, comece a ficar imprudentemente verborrágico. Yoma poderia receber uma pena mínima de cinco anos, sem direito à fiança. Para animar e tranqüilizar seu ex-cunhado, Menem o visitou diversas vezes na prisão. Ali, afirmam testemunhas, ouviu o detido gritar a frase "me tira daqui!". O ex-presidente cancelou as viagens que estavam em sua agenda para monitorar o comportamento de Yoma. O presidente Fernando de la Rúa admitiu que Menem lhe telefonou preocupado pelo futuro de seu ex-cunhado. De la Rúa declarou que não vai interferir na Justiça que, segundo ele, "é independente".Esse panorama incerto desanimou o septuagenário caudilho peronista a tal ponto que adiou o casamento com a ex-miss Universo Cecilia Bolocco, que estava - segundo anúncio feito pelo próprio há dois meses - programado para maio. Os quatro vestidos de casamento encomendados pela longilínea chilena terão que esperar por dias melhores.

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