Ex-deputado do partido de Rajoy contesta tesoureiro

Ex-responsável por finanças do PP nega caixa 2 em depoimento, mas ex-parlamentar confirma que empreiteiras bancavam 'mensalão'

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2013 | 02h01

O ex-tesoureiro do Partido Popular Luis Bárcenas negou ontem em seu primeiro depoimento ao Ministério Público, em Madri, que tenha gerenciado um esquema de caixa 2 e de pagamento de salários ilegal a líderes políticos do PP (centro-direita) entre 1990 e 2008. Peça-chave na investigação, o contador foi desmentido pelo ex-deputado do PP Jorge Trías, que confirmou a ligação entre empreiteiras espanholas e dirigentes como o primeiro-ministro Mariano Rajoy.

O dia de ontem foi de alta tensão em Madri. Pivô do escândalo político que ameaça derrubar o governo da Espanha, Bárcenas chegou ao Ministério Público no final da manhã e saiu pouco depois das 14 horas.

Escoltado pela polícia e por seu advogado, ele não falou ao batalhão de jornalistas que o esperava. Ele não escapou de insultos de cidadãos, muitos com cartazes com a mesma expressão: "ladrão". Nas mais de duas horas em que foi ouvido - já na condição de acusado, mas ainda sem a obrigação jurídica de dizer a verdade -, o tesoureiro negou todas as principais suspeitas que recaem sobre sua atuação.

Bárcenas disse que o PP não recebia doações clandestinas de empresas privadas e, portanto, não tinha um caixa 2, nem oferecia salários não declarados à receita Federal aos principais dirigentes do partido.

As negativas repetem o discurso que o contador manteve na última entrevista que concedeu, à rede 13TV, na segunda-feira, quando disse que os documentos com a contabilidade clandestina publicados pelo jornal El País não são seus. "Jamais paguei nenhum salário extra nem a dirigentes, nem a empregados do partido", argumentou então. "O dinheiro dos doadores anônimos sempre ingressou na conta que o partido tinha para essas doações."

Além do depoimento, Bárcenas teve de realizar um teste caligráfico, que será comparado à letra dos documentos contábeis publicados pela imprensa.

Desmentido. Antes mesmo do resultado do exame, as declarações do ex-tesoureiro já haviam sido desmentidas por outra testemunha. Ex-deputado do PP, Jorge Trías foi ouvido pouco antes pela Promotoria Anticorrupção e também deixou o prédio sem falar com os jornalistas. Por telefone, porém, ele informou à rede de TV Telecinco que confirmou a existência do esquema de caixa 2 e das doações ilegais no PP. "Eu cumpri minha obrigação", disse ele, sem entrar em detalhes. Hoje, será a vez do outro tesoureiro do PP, Álvaro Lapuerta, depor ao Ministério Público sobre sua gestão, entre 1993 e 2008.

O escândalo abala a vida política da Espanha, pois nomes importantes do atual e de antigos governos conservadores aparecem nas listas de Bárcenas como beneficiários dos salários clandestinos.

Entre eles estão o premiê Mariano Rajoy, que teria recebido € 25,2 mil ao ano entre 1997 e 2008, o ex-premiê José María Aznar, o ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) Rodrigo Rato, além de ministros e ex-ministros. O desafio do Ministério Público é estabelecer o vínculo entre contas fantasmas do PP na Suíça, pelas quais teriam sido movimentados € 22 milhões - este caso vem sendo investigado desde 24 de dezembro -, e o suposto caixa 2 comandado por Bárcenas e Lapuerta no partido.

Se o Judiciário ainda busca provas, para a opinião pública espanhola não restam dúvidas sobre a corrupção do sistema político do país. Nas ruas de Madri, pichações e cartazes fazem referências aos "políticos ladrões". Na Plaza del Sol, uma das mais famosas da capital, no centro da cidade, dezenas de jovens "indignados" voltaram a se instalar a céu aberto em protesto contra o governo Rajoy. Dezenas de policiais também acompanham o movimento. O escândalo enfureceu a população, principalmente porque Rajoy tem exigido um maior sacrifício dos espanhóis em meio a uma recessão e uma taxa de desemprego de 25%. Mais da metade dos jovens está sem trabalho.

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