Ex-diplomata diz que Brasil é "buraco" na política dos EUA

A falta de qualquer menção substantiva ao Brasil no discurso com que o presidente George W. Bush procurou relançar sua política para as Américas, na noite de ontem, não surpreendeu os latinoamericanistas em Washington, nem foi tomada como desfeita ao País por diplomatas brasileiros na capital americana. Estes até preferem que seja assim. A atenção de Washington à região é geralmente provocada por razões negativas, dizem eles. Além disso, observam que o Brasil, em contraste com vários de seus vizinhos, não está em constante busca de aprovação dos EUA. Mas o debate suscitado pela fala de Bush trouxe à tona, pela primeira vez numa discussão pública, uma explicação sobre a quase total ausência do Brasil no ?radar? americano. O problema é a falta de conhecimento ou de interesse pelo Brasil na burocracia americana, a começar pelo Departamento de Estado. "O Brasil é um buraco escuro na política dos Estados Unidos para a região", disse o ex-diplomata americano Crescêncio Arcos, ex-embaixador em Honduras que trocou a carreira alguns anos atrás pela vice-presidência da AT&T para a América Latina, durante um seminário no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). "Não há especialistas em Brasil e é difícil encontrar mesmo quem fale português", disse Arcos, que foi subsecretário de Estado adjunto para a América Latina . "O Brasil é totalmente ignorado e o resultado é que você não ouve falar num país cuja importância deveria ser óbvia" para os EUA. Para o ex-diplomata, "os Estados Unidos precisam ser mais imaginativos" em relação ao Brasil. Na falta de imaginação, prevalece o modelo de pensamento da guerra fria, no qual o País é tratado como o rival dos EUA na região. Essa atitude às vezes se manifesta em críticas de diplomatas americanos à uma certa inclinação "francesa" do Brasil, ou seja, à propensão do País de ter opiniões próprias e de manifestá-las na defesa de seus interesses. Ela ficou clara nas últimas semanas, nas manifestações de preocupação que funcionários americanos fizeram a seus colegas de Buenos Aires sobre a reaproximação da Argentina com o Brasil. Ela tem permeado a cobertura da crise argentina por jornais americanos, e afeta até intelectuais que não fazem parte do coro antibrasileiro em Washington. Arturo Valenzuela, professor da Universidade de Georgetown e ex- assessor senior do presidente Bill Clinton para a América Latina, trabalhou na Casa Branca em parceria com o último embaixador dos EUA em Brasília, Anthony Harrington, para superar as resistências da burocracia do Departamento de Estado a iniciativas com o Brasil. Mas hoje, ao criticar a posição dura que os EUA assumiram em relação aos governos recentes em Buenos Aires, no seminário do CSIS, Valenzuela disse que "que a Argentina estava se distanciando e movendo-se na direção do Brasil". Uma das preocupações que Valenzuela compartilha com os formuladores da política hemisférica dos EUA é que a Argentina venha a reforçar "o protecionismo que não é política do governo brasileiro, mas existe e ganha espaço na sociedade brasileira", complicando as negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Indagado se o problema estava restrito ao Brasil, Valenzuela reconheceu que um dos obstáculos para a criação da Alca é, também, o avanço do protecionismo no Congressso dos Estados Unidos. "Essa atitude de ver gestos de liderança e de boa vizinhança do Brasil como algo que prejudica os interesses dos Estados Unidos e subtrai à liderança americana na região é muito ruim, até porque alimenta a paranóia daqueles que, em nosso País, acreditam que os americanos estão realmente empenhados numa conspiração contra nós", observou um diplomata brasileiro.

Agencia Estado,

17 Janeiro 2002 | 19h44

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