Ernesto BENAVIDES / AFP
Ernesto BENAVIDES / AFP

Delator reafirma repasse ilegal da Odebrecht a ex-presidente peruano que se suicidou

Jorge Barata presta declarações a procuradores peruanos em Curitiba e fala sobre pagamentos irregulares no valor de US$ 200 mil feitos em 2006 ao Apra, partido de Alan García

Fernanda Simas e Luiz Raatz, enviado especial a Lima, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2019 | 15h25

O ex-representante da Odebrecht no Peru, Jorge Barata, confirmou nesta terça-feira, 23, que a construtora brasileira realizou pagamentos em 2006 para o partido Apra, do ex-presidente peruano Alan García, que se matou na quarta-feira, 17, ao receber uma ordem de prisão pelo caso de corrupção

Barata presta depoimento aos procuradores José Domingo Pérez e Rafael Vela, responsáveis pela Lava Jato no Peru, na sede da PGR em Curitiba. Além dos pagamentos não declarados ao partido político, o ex-representante da Odebrecht deve falar sobre as obras da Linha 1 do metrô de Lima. 

Segundo Barata, o Apra recebeu US$ 200 mil por meio de pagamentos não declarados. Parte desse dinheiro, US$ 60 mil, foi entregue diretamente a Luis Alva Castro, conhecido como 'laque', segundo ele. As informações confirmadas nesta terça foram ditas pela primeira vez por Barata em fevereiro de 2018. Na ocasião, ele afirmou que García agradeceu o apoio da Odebrecht em 2006. 

O advogado de Barata, Carlos Kauffmann, afirmou que seu cliente entregará mais de 4 mil páginas de documentos sobre o que está afirmando após o acordo de delação ser homologado no Peru. “Ele respondeu (ontem) todas as perguntas com estrito apego à verdade, que é exatamente o que deve fazer o colaborador”, disse Kauffmann ao Estado após o depoimento. Até sexta-feira, novas declarações devem detalhar outras participações da Odebrecht em obras e campanhas do Peru.

“Foi uma colaboração sem restrição. Barata respondeu com detalhes todas as perguntas”, disse Vela. 

Após o suicídio de García, o Ministério Público peruano voltou a ser criticado por adotar uma política agressiva ao pedir a prisão preventiva dos investigados pelo escândalo de corrupção da Odebrecht. 

Erasmo Reyna, advogado de García, afirmou que a declaração de ontem prova que o ex-presidente era inocente. “Hoje (terça-feira) ficou provado que Alan García nunca pediu dinheiro ou recurso da Odebrecht ou mesmo a Barata. Eles nunca conversaram durante a campanha sobre nada irregular ou ilícito”, disse o advogado ao Estado.

No Apra, a interpretação foi a de que o ex-presidente é inocente. “Ele não se vendia. Esse depoimento prova isso. Alan não foi citado nominalmente”, disse ao Estado Germán Luna, um dos dirigentes do partido. 

As suspeitas contra García começaram quando ele disse a procuradores peruanos que havia se reunido apenas uma vez com Marcelo Odebrecht, mas havia registro de cinco reuniões entre eles. O MP peruano então abriu duas frentes de investigação. A primeira envolvia doações ilegais de campanha feitas pela Odebrecht, em 2006, no valor de US$ 200 mil. A segunda diz respeito a contratos superfaturados para a construção da Linha 1 do metrô de Lima. 

O depoimento mobilizou a atenção dos peruanos ontem. Em cafés e restaurantes da cidade, os olhos dos clientes estavam nos canais de notícias que traziam detalhes do caso. O interrogatório deve continuar nesta quarta-feira em Curitiba. 

Nas ruas do Peru, o choque com a morte de García ocorre em paralelo às teorias da conspiração e boatos disseminados em redes sociais e aplicativos de mensagem. O mais popular deles é que o ex-presidente não teria de fato se matado e a “prova” disso seria o fato de ter sido velado com o caixão fechado – na verdade uma medida padrão para mortes causadas por ferimento de bala no crânio.

“Alan era esperto demais para ser pego. Sempre envolvem um amigo que ficou rico, um ministro, mas nunca ele”, disse ao Estado Carlos Quesada, que trabalha em um banco na Avenida José Larco, em Lima. 

O interrogatório confirmou as expectativas de fontes do MP peruano, que na semana passada disseram ao Estado que esperavam que Barata desse detalhes de doações ilegais da Odebrecht à campanha de García, em 2011. Na avaliação dos procuradores, García, que tinha contra si uma ordem de proibição de saída do Peru, já temia que o depoimento de Barata o implicasse. 

No dia 17, ele se matou com um tiro na cabeça, após receber um pedido de prisão temporária, que, segundo fontes da Lava Jato no Peru, tinha como objetivo impedir a fuga do ex-presidente. Procurada, a Odebrecht no Peru disse, por meio de assessoria, que assinou uma acordo com o MP e continuará colaborando. 

 

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