AFP PHOTO / Brendan Smialowski
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Casa Branca mentiu, diz ex-chefe do FBI

Em depoimento, James Comey afirma que Trump pressionou pelo fim da investigação sobre Michael Flynn, ex-chefe de Segurança Nacional

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 11h57
Atualizado 08 de junho de 2017 | 21h49

WASHINGTON - O ex-diretor do FBI James Comey disse nesta quinta-feira, 8, que interpretou como uma “ordem” o pedido do presidente Donald Trump para que ele abandonasse a investigação sobre a relação entre Michael Flynn, ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, e autoridades russas. Em depoimento ao Senado, ele também acusou o governo o de mentir sobre as razões de sua demissão, no dia 9 de maio.

Aos senadores, Comey afirmou que não cabia a ele avaliar se o comportamento do presidente pode ser ou não considerado uma tentativa de obstrução da Justiça – se provada, ela pode dar margem à abertura de um pedido de impeachment. “Eu recebi (o pedido) como algo muito perturbador, muito preocupante.” 

Segundo ele, a resposta sobre a intenção do presidente e se ela constituiu uma ofensa criminal será dada por Robert Mueller. Ex-diretor do FBI, ele foi indicado, no dia 17 de maio, pelo Departamento de Justiça, para conduzir de maneira independente a investigação sobre a suspeita de conspiração entre a campanha de Trump e a Rússia para influenciar as eleições de 2016.

Questionado se acreditava que o presidente havia conspirado com a Rússia, Comey respondeu que não poderia falar sobre o assunto em uma sessão aberta no Congresso. Depois do depoimento, o ex-diretor do FBI teve um encontro fechado com os integrantes do Comitê de Inteligência do Senado, no qual discutiu informações confidenciais. Nessa reunião, ele disse que o secretário de Justiça, Jeff Sessions, pode ter tido um terceiro encontro com o embaixador russo em Washington no ano passado, de acordo com a CNN. 

Comey disse estar convencido de que caiu em razão da maneira pela qual conduziu a investigação relativa à Rússia. Em sua avaliação, não há nenhuma dúvida de que as autoridades daquele país atuaram para influenciar a disputa presidencial americana. “Eu fui demitido de alguma forma para mudar, ou a intenção era mudar, a maneira pela qual a investigação da Rússia estava sendo conduzida.”

Documentos. O ex-diretor do FBI acusou a Casa Branca de mentir sobre as razões de sua demissão, ao apresentar como justificativa a suposta desorganização e ausência de liderança na agência. “Aquelas eram mentiras, claras e simples”, afirmou. No dia seguinte à sua demissão, o próprio Trump se encarregou de minar a versão oficial da Casa Branca ao dizer à rede NBC que tinha a Rússia “em mente” quando tomou sua decisão.

O temor de que o presidente mentiria sobre o conteúdo das conversas que tiveram em três encontros e seis telefonemas levaram Comey a fazer anotações sobre os diálogos, colocando em aspas declarações textuais do presidente. O original das notas foi entregue a Mueller, o procurador independente. Registros feitos por agentes do FBI no momento da ocorrência dos fatos costumam ter credibilidade nos tribunais americanos. 

Quando o presidente insinuou no Twitter, no dia 12 de maio, que tinha gravações das conversas, Comey tomou a decisão de vazar o conteúdo de suas anotações ao jornal New York Times, por meio de um amigo. 

“Como cidadão privado, me sentia livre para compartilhar aquilo. Eu achei que era importante divulgar.” O ex-diretor do FBI também esperava que a revelação das conversas levasse à indicação de um procurador independente para o caso – o que de fato ocorreu no dia seguinte.

Depois do depoimento, o advogado de Trump, Marc Kasowitz, acusou o ex-diretor do FBI de “revelações não autorizadas” de “comunicações privilegiadas” com o presidente. Segundo ele, Trump nunca disse que esperava “lealdade” de Comey nem pediu para que ele “deixasse para lá” a investigação sobre Michael Flynn. 

“O testemunho do sr. Comey também deixa claro que o presidente nunca procurou impedir a investigação sobre a tentativa da Rússia de interferir na eleição de 2016”, observou Kasowitz. “O sr. Comey finalmente confirmou publicamente o que disse de maneira repetida ao presidente: que o presidente não estava sob investigação.”

Sarah Huckabee Sanders, uma das porta-vozes da Casa Branca, disse hoje que considerava “ofensiva” uma pergunta sobre o apego do presidente à verdade. “Eu posso definitivamente dizer que o presidente não é um mentiroso.”

Apesar de dizer que não havia investigações contra Trump, Comey descreveu uma série de comportamentos impróprios do presidente, que cruzaram a linha que tradicionalmente separa o ocupante da Casa Branca e o diretor do FBI. 

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