Al Drago/The New York Times
Al Drago/The New York Times

Ex-diretor do FBI diz que Trump o pressionou e 'pediu lealdade'

Presidente também pediu, segundo James Comey, que ele ele se afastasse da investigação sobre o envolvimento do ex-assessor de Segurança Nacional Michael Flynn com a Rússia

Claudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 15h29
Atualizado 07 de junho de 2017 | 18h05

WASHINGTON - O ex-diretor do FBI James Comey publicou um comunicado nesta quarta-feira, 7, no qual diz que o presidente americano, Donald Trump, pediu que ele se afastasse da investigação sobre o envolvimento do ex-assessor de Segurança Nacional Michael Flynn com a Rússia. Segundo Comey, o presidente também lhe exigiu "lealdade". Ele foi demitido no começo do mês passado por Trump. Amanhã, ele deve depor em sessão aberta na Comissão de Inteligência do Senado sobre o caso. 

Em declaração escrita entregue ao Senado americano,  Comey disse que  Trump demandou "lealdade" em um juntar que ambos tiveram no dia 27 de janeiro e pediu em um encontro posterior que ele abandonasse a investigação sobre as ligações entre o ex-conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn e a Rússia.  "Eu preciso de lealdade, eu espero lealdade", disse Trump no dia 27, de acordo com anotações feitas no mesmo dia por Comey.

A solicitação foi feita um dia depois de Flynn ter sido demitido, por omitir encontros que teve em dezembro com o embaixador russo em Washington.

"Eu espero que você possa deixar isso para lá, deixar Flynn de lado. Ele é um cara legal. Eu espero que você possa deixar isso para lá", afirmou o presidente em encontro no dia 14 de fevereiro, de acordo com as anotações. Comey diz ter respondido apenas "ele é um cara legal".

A interações podem ser potencialmente interpretadas como uma tentativa de obstrução da Justiça, o que poderia dar as bases para a abertura de um processo de impeachment.

'Nuvem'. Em conversa telefônica nos dias 30 de março, o presidente Donald Trump pediu ao então diretor do FBI, James Comey, que dissipasse a "nuvem" representada pelas investigação de possível conspiração entre autoridades russas e integrantes de sua campanha para influenciar as eleições de novembro. 

A afirmação está em declaração escrita entregue nesta quarta-feira por Comey ao Senado. O ex-diretor do FBI disse ainda que foi pressionado por Trump a declarar publicamente que ele não estava sob investigação da Polícia Federal americana.

"Ele descreveu a investigação da Rússia como "uma nuvem" que estava prejudicando sua habilidade de atuar em nome do país. Ele disse que não tinha nada a ver com a Rússia, que não havia se envolvido com prostitutas russas e que sempre presumiu que era sendo gravado quando estava na Rússia. Ele perguntou o que nós poderíamos fazer para 'dissipar a nuvem'", afirmou Comey, que manteve registros escritos de todas as suas converas com Trump. "Eu disse a ele que eu iria ver o que poderia fazer e que nós conduziríamos o nosso trabalho de investigação bem e da maneira mais rápida possível."

O presidente voltou a telefonar a Comey no dia 11 de abril, para questioná-lo sobre a divulgação do fato de que ele não estava sob investigação. O então diretor do FBI respondeu que havia transmitido a solicitação ao subsecretário de Justiça e que o conselheiro jurídico da Casa Branca deveria tratar do assunto com ele. 

No depoimento escrito, Comey disse ter se sentido desconfortável em relação aos encontros e conversas com o presidente. Contatos diretos entre a Casa Branca e o FBI são desestimulados para não haver ameaça à independência da agência.

"Porque eu tenho sido muito leal a você; nós temos aquela coisa, você sabe", disse Trump a Comey, de acordo com o ex-diretor do FBI, ao insistir na declaração sobre a ausência de investigação. "Eu não respondi nem perguntei o que ele queria dizer com 'aquela coisa'", escreveu Comey. 

Poucas semanas antes da eleição presidencial, o então diretor do FBI enviou carta ao Congresso na qual dizia ter encontrado potenciais novas evidências para a investigação do uso de um servidor privado de internet por Hillary Clinton durante sua passagem pelo Departamento de Estado. A poucos dias da eleição ele concluiu que as provas não eram relevantes. Muitos democratas acreditam que a ação de Comey foi crucial para a derrota de Hillary.

 

Tudo o que sabemos sobre:
RússiaWASHINGTONDonald Trump

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.