Ex-ditador argentino passará o resto da vida na prisão

O Tribunal Oral Federal Número Um da cidade de Córdoba, na região central da Argentina, condenou hoje o ex-general e ex-ditador Jorge Rafael Videla à prisão perpétua por considerá-lo responsável direto de 31 assassinatos (camuflados na época como simulacros de fugas) e cinco torturas ocorridos em 1976 na Unidade Penitenciária San Martín (UP1), transformada em um campo de concentração de prisioneiros políticos nos primeiros meses do regime militar.

ARIEL PALACIOS, Agência Estado

22 de dezembro de 2010 | 19h16

Organizações de defesa dos direitos humanos como as Avós da Praça de Mayo, além de associações de parentes das vítimas da ditadura, celebraram a condenação do lado de fora do edifícios dos tribunais em Córdoba. O prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, estava presente na sala do tribunal.

O julgamento em Córdoba trouxe à tona uma série de depoimentos dramáticos, entre eles os de David Andematten, um dos sobreviventes do centro de detenção UP1, que relatou que os militares estupravam constantemente as prisioneiras políticas.

O ex-general, atualmente com 84 anos, é considerado o "arquiteto" do sistema de repressão aplicado pela ditadura, que torturou e assassinou 30 mil civis, além de sequestrar 500 bebês, filhos das desaparecidas políticas.

Ontem, Videla teve o direito de falar no tribunal. Em meio a uma prolongada defesa das ações do regime militar, ele tentou justificar a "necessária crueldade" da ditadura e sugeriu que a "sociedade argentina" havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, "não existiam vozes contrárias" ao regime militar.

Videla, autor do golpe militar que em 1976 instaurou o regime militar que governou a Argentina durante sete anos, já havia sido julgado e condenado à prisão perpétua por outros crimes, em 1985. No entanto, foi posteriormente anistiado, em 1990. Em 1998, os organismos de defesa dos direitos humanos driblaram as leis de perdão aos militares e conseguiram a detenção de Videla pelos sequestro de crianças, crime que não havia sido incluído no indulto presidencial. Em 2007, com a anulação dos indultos, declarados inconstitucionais, Videla tornou-se alvo de uma série de processos na Justiça relativos a assassinatos.

Julgamentos

Ao longo de 2010 um total de 66 ex-integrantes da ditadura militar, entre os quais oficiais das forças armadas, policiais e alguns civis, foram condenados à prisão pelo envolvimento com crimes contra a Humanidade cometidos durante os denominados "anos de chumbo". No total, desde 2007, nos julgamentos sobre terrorismo de Estado foram julgadas 172 pessoas. Destas, 158 foram condenadas a diversas penas de prisão.

Segundo a Unidade Fiscal, organismo da Justiça que acompanha os julgamentos sobre violações aos Direitos Humanos, estão em andamento julgamentos de outros 100 ex-torturadores. Além disso, estão em etapas preliminares os processos de 800 ex-integrantes do regime militar.

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