Ex-ditador argentino pega perpétua

Rafael Videla, arquiteto do golpe de 1976, foi considerado culpado por 31 assassinatos e 5 casos de tortura na prisão de San Martín

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2010 | 00h00

O ex-ditador e ex-general argentino Jorge Rafael Videla, de 85 anos, passará o resto de seus dias na prisão. Esta foi a determinação da Justiça federal de Córdoba, cidade da região central da Argentina, que ontem condenou à prisão perpétua o arquiteto do golpe de Estado que, em março de 1976, instalou um regime militar que durou sete anos. Cerca de 30 mil civis foram torturados e mortos durante a ditadura.

O tribunal considerou Videla responsável direto por 31 assassinatos - camuflados na época como supostas tentativas de fugas das vítimas - ocorridos em 1976 na Unidade Penitenciária San Martín, em Córdoba. O ex-ditador ainda foi responsabilizado pela tortura de cinco pessoas no local, que acabou transformado em um campo de prisioneiros políticos durante o regime militar.

Organizações de defesa dos direitos humanos, que haviam feito vigília do lado de fora do edifício da Justiça de Córdoba, celebraram o anúncio da condenação da Videla. Outros 29 ex-integrantes da ditadura envolvidos nos crimes de Córdoba - entre eles o ex-general Luciano Benjamín Menéndez - também foram condenados.

Na terça-feira, Videla defendeu longamente as ações do regime militar, afirmando que a crueldade era "necessária". O ex-ditador também sugeriu que a sociedade argentina foi cúmplice do sistema, já que, segundo ele, "não existiam vozes contrárias". Videla também disse que sua sentença é injusta e ele foi apenas um "bode expiatório".

"O mal". María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu O Ditador, uma detalhada biografia não autorizada do ex-general, disse ontem ao Estado que "Videla não se arrepende de nada, voltaria a matar todos aqueles que matou". "Ele é o mal em estado puro." A escritora disse que "Videla se reunia com o chefe de inteligência de manhã cedo". "Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia matado no dia anterior e como estavam funcionando os 540 campos de concentração da ditadura."

Antes do anúncio dos veredictos, outro dos condenados, o ex-general Menéndez, afirmou que há sete anos, desde que foram intensificadas as novas investigações sobre os crimes da ditadura, a Argentina "está sob a violação sistemática da Constituição". "Já são sete anos de autoritarismo", reclamou. Menéndez, que está em prisão preventiva desde 2008, acumula outras quatro condenações a prisão perpétua.

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