Dieu Nalio Chery/AP
Dieu Nalio Chery/AP

Ex-ditador Baby Doc retorna ao Haiti após 25 anos de exílio na França

Jean-Claude Duvalier chega inesperadamente em Porto Príncipe e é recebido por ex-funcionários de seu governo e alguns simpatizantes; homem que roubou US$ 100 milhões e comandou uma violenta ditadura nos anos 70 diz que chegou para ''ajudar''

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2011 | 00h00

O ex-ditador haitiano Jean-Claude Duvalier, o "Baby Doc", que aterrorizou o país entre 1971 e 1986, desembarcou ontem de maneira inesperada em Porto Príncipe. Recebido por um grupo de ex-funcionários de seu governo, Baby Doc chega em meio a uma grave crise política.

"Vim para ajudar", disse o ex-ditador após desembarcar, às 17h30 (horário local), ao lado da mulher, Veronique Roy, de um Airbus A320 da Air France, que veio de Paris e fez escala na ilha de Guadalupe. Ao descer do avião, vestindo terno azul e gravata, Baby Doc se ajoelhou e beijou o solo.

Ele fugiu do país em 1986 após uma revolta popular. Desde então, vivia exilado em uma mansão na Côte d"Azur, França.

Assim que a notícia de sua chegada foi divulgada, a TV haitiana exibiu um documentário sobre a fuga de Baby Doc, embalada pela Cavalgada das Valquírias, do compositor alemão Wagner.

Durante seu período de exílio, Baby Doc, filho e herdeiro político de François Duvalier, o Papa Doc (mais informações nesta página), manteve-se longe da imprensa. Em uma rara entrevista, em 2007, ele pediu desculpas ao "povo haitiano" pelos "erros cometidos" no passado.

O presidente René Préval, que deve deixar o poder nos próximos meses, havia afirmado que levaria Duvalier à Justiça caso o ex-ditador colocasse os pés em solo haitiano. Além de massacres, Baby Doc é acusado de vários casos de corrupção e de ter surrupiado uma fortuna antes de bater em retirada.

Segundo informações de bastidores, Baby Doc teria negociado sua volta diretamente com o primeiro-ministro do Haiti, Jean-Max Bellerive. O ex-ditador entrou com seu passaporte haitiano e não foi preso.

Por precaução, o batalhão brasileiro da missão de paz da ONU entrou em alerta e intensificou suas patrulhas durante o dia. Nenhum incidente havia sido registrado até ontem à noite.

Doação. Em fevereiro de 2010, ele prometeu fazer uma doação de US$ 5 milhões para a reconstrução do Haiti. O dinheiro estava bloqueado em uma conta na Suíça e a Justiça local havia determinado a devolução da fortuna porque, segundo a lei suíça, os crimes de Duvalier teriam prescrito. Na época, Berna se apressou em dizer que manteria os recursos bloqueados enquanto não encontrasse uma maneira de devolvê-los ao Haiti.

Militares brasileiros afirmam que a confusão causada por Duvalier não envolve diretamente a Minustah, pois se trata de uma decisão judicial haitiana. O mandato da missão restringe-se a manter a ordem no país. Portanto, só haverá envolvimento das tropas de paz se a chegada do ex-ditador levar os haitianos às ruas em protestos violentos.

Em meio ao impasse político e ao clima de incerteza causado pela chegada de Duvalier, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o chileno José Miguel Insulza, deve desembarcar hoje em Porto Príncipe. Segundo o embaixador dos EUA no Haiti, Kenneth Merten, Insulza discutirá com o presidente René Préval a implementação - e não a alteração - do relatório da OEA, que muda o resultado do segundo turno.

Os EUA denunciaram a fraude e exigiram que um órgão independente recontasse os votos. Segundo a OEA os registros eleitorais foram modificados, beneficiando o candidato do governo, Jude Celestin. Mais de 200 locais de votação registraram comparecimento de 100%, enquanto a média nacional ficou abaixo de 20%.

PARA ENTENDER

A cleptocracia do clã Duvalier

O tormento causado pela família Duvalier começou em 1957, quando assumiu o poder o médico sanitarista François Duvalier, conhecido pelo carinhoso apelido de Papa Doc (Papai Médico), por causa de sua luta contra a malária. Seu governo foi marcado pela violência das milícias tontons-macoutes. Em 14 anos, a ditadura deixou 30 mil mortos e 15 mil desaparecidos.

Papa Doc só saiu da presidência morto, em 1971, após ser coroado presidente vitalício e deixar o posto para o filho, Jean-Claude, o Baby Doc. A política local, no entanto, continuou um desastre completo e os haitianos descobriram que o que já era ruim poderia ficar pior.

A essa altura, a população do Haiti já deixava o país em bando, procurando embaixadas estrangeiras ou simplesmente embarcando em qualquer objeto flutuante em direção a Miami. Ao longo de 15 anos, estima-se que Baby Doc tenha roubado cerca de US$ 100 milhões antes de ser derrubado por uma revolta popular, em 1986.

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