Arquivo/Reuters
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Ex-ditador Videla permitiu assassinato das freiras que ajudaram seu filho

Família Videla nunca admitiu a existência de um filho com problemas mentais

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

17 de maio de 2013 | 15h35

BUENOS AIRES - O ex-ditador Jorge Rafael Videla permitiu a morte das freiras que haviam criado um filho seu que padecia problemas mentais. As freiras, assassinadas na Escola de Mecânica da Armada (Esma) em 1977, haviam tomado conta de Alejandro Videla, que nasceu em 1951 com elevado grau de deficiência mental. Aos doze anos o garoto - uma década e meia antes de Videla transformar-se em ditador - foi confinado em um lar religioso por ordem de seu pai, que padecia profunda vergonha de ter um filho com essas condições. Os Videla jamais admitiram a existência dessa criança em público.

Em 2005 Jean-Pierre Lhande, presidente da Associação de Parentes e Amigos dos Desaparecidos Franceses, não teve papas na língua ao referir-se ao caso: "a Congregação das Irmãs das Missões Estrangeiras, que foi criada na França por uma freira argentina, a Madre Dolores, criou o filho com problemas mentais de Videla. E ele era presidente quando as freiras desapareceram e mesmo assim, não fez absolutamente nada. Estas freiras criaram seu filho em Castelar (província de Buenos Aires) durante anos!".

A existência de Alejandro tornou-se pública quando os jornalistas María Seone e Vicente Muleiro detalharam sua história em "O Ditador", a primeira biografia sobre Videla.

Segundo os autores, as duas freiras haviam sido "amáveis, piadosas e solidárias com essa desgraça familiar dos Videla". Além disso, as dedicadas freiras esforçaram-se em ensinar Alejandro a ler com o método Blequer, para crianças com baixo coeficiente mental.

As freiras eram as francesas Léonnie Duquet e Alice Domon. Duquet foi seqüestrada em dezembro de 1977 por um comando liderado pelo então tenente (e posteriormente capitão) Alfredo Astiz, conhecido como "o anjo loiro" ou "o anjo da morte".

Astiz a torturou com choques elétricos, especialmente nos genitais. O crime da freira, segundo os militares, era o de ajudar favelados e participar de grupos de defesa dos Direitos Humanos. Depois de uma semana de ter sido torturada nua sobre uma cama, Duquet, de 61 anos, foi jogada desde um avião sobre o Rio da Prata. Vinte e nove anos depois, no início desta semana, a Justiça anunciou que seu corpo havia sido finalmente identificado.

Videla soube da detenção das freiras enquanto elas ainda estavam presas na Escola de Mecânica da Armada (ESMA). No entanto, segundo relatos, não se incomodou quando soube que as mulheres que haviam tomado conta de seu filho estavam sendo torturadas e corriam risco de vida. Ele só mostrou perturbação quando soube que a detenção das freiras já era de conhecimento do jornalismo internacional. Nesse momento, exclamou, referindo-se aos militares que as haviam seqüestrado serem discretos: "além de animais, são ineptos".

Na época da revelação da existência de Alejandro, a esposa do ex-general, Raquel Hartridge de Videla, declarou que nunca havia tido um filho com problemas mentais. Alejandro, que sofria de oligofrenia e epilepsia, escondido do resto da sociedade e dos amigos da família, morreu em 1971, aos 19 anos, de forma anônima, abandonado pela família.

 

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