Ex-embaixador acusa Argentina e Venezuela de corrupção

Segundo diplomata, empresários pagavam autoridades para fazer negócios com venezuelanos

Marina Guimarães, da Agência Estado

23 de abril de 2010 | 15h34

BUENOS AIRES - A Argentina e a Venezuela estão sendo acusadas de envolvimento em um novo caso de corrupção. O ex-embaixador argentino em Caracas, Eduardo Sadous, disse à Justiça que empresários locais tinham de pagar propinas a funcionários do Ministério de Planejamento argentino para fazer negócios com a Venezuela. Sadous também afirmou que integrantes do governo Kirchner teriam sido beneficiados com testas de ferro nas exportações à Venezuela e que a relação comercial bilateral era negociada, paralelamente à Chancelaria, por Claudio Uberti, ex-diretor de Órgão de Controle de Concessões Viárias (Occovi).

Uberti era o braço direito do ministro do Planejamento, Julio De Vido, mas foi demitido em 2007 por ter sido um dos protagonistas de outro escândalo, conhecido como "o caso da maleta". Ele era um dos passageiros do voo charter que transportou de Caracas a Buenos Aires uma mala contendo US$ 800 mil, supostamente para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner. No voo, que foi pago pela estatal energética argentina Enarsa, viajavam funcionários públicos de ambos os governos e o empresário venezuelano Guido Antonini, que tentou passar pela alfândega sem declarar o dinheiro.

Na ocasião, o partido de oposição Coalizão Cívica apresentou uma denúncia à Justiça de associação ilícita entre o governo Kirchner e o presidente venezuelano Hugo Chávez. Uberti foi apontado como uma espécie de "embaixador paralelo", que promovia os negócios bilaterais.

As revelações de Sadous foram feitas durante depoimento prestado neste processo, na qual a deputada Elisa Carrió, líder do partido, acusa o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) de ser o chefe da rede de negócios ilícitos com o país caribenho. A ação também implica o ministro do Planejamento Julio De Vido, o ex-secretário de Transportes, Ricardo Jaime (que responde a processos por corrupção) e outros funcionários. Sadous ocupou o cargo entre 2002 e 2005.

"É uma infâmia, uma calúnia que mancha, desnecessariamente, muitíssimas pessoas", se defendeu De Vido, nesta sexta-feira, à imprensa local. Segundo ele, "na relação bilateral nunca foi assinado nada escondido da Chancelaria, nem houve diplomacia paralela".

A relação do casal Kirchner com Chávez é recheada de suspeitas. Entre 2005 e 2008, a Venezuela foi o único comprador de títulos públicos argentinos. Nesse período, a Argentina vendeu mais de US$ 9 bilhões de bônus da dívida ao governo venezuelano. Chávez também prestou socorro vendendo à Argentina óleo diesel para amenizar a crise energética. Em troca, Chávez recebeu o apoio irrestrito de Cristina para sua entrada no Mercosul. Os acordos comerciais entre os dois países renderam à Argentina, somente em 2009, US$ 1,23 bilhão em exportações.

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