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Ex-escrava sexual do EI encontra seu algoz em supermercado na Alemanha

Membro da minoria yazidi deixou a Europa no fim de março com sua mãe e seu irmão com destino ao norte do Iraque, onde diz viver torturada pelo medo

O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2018 | 17h39

A yazidi Ashwaq Haji assegura ter cruzado em fevereiro, em um supermercado da Alemanha, com o extremista que a manteve como escrava sexual no Iraque, para onde retornou e vive amedrontada. O grupo Estado Islâmico (EI) sequestrou, assassinou e usou como escravas sexuais milhares de mulheres da minoria yazidi do Iraque quando se apoderou de um terço do país em 2014, sobretudo da pátria dos yazidis no Monte Sinjar (noroeste).

Ashwaq Haji foi raptada em 3 de agosto de 2014. Em 22 de outubro daquele ano, conseguiu fugir da casa de um extremista iraquiano chamado Abu Humam. Esse homem a comprou "por US$ 100", contou ela à AFP durante uma visita ao santuário yazidi de Lalish, a 60 quilômetros da cidade de Mossul, no norte do Iraque.

Junto com ela, centenas de pessoas lembram de um dos massacres ocorridos contra essa minoria de língua curda e adepta de uma religião esotérica monoteísta. 

Cativeiro

A mãe e o irmão mais novo de Ashwaq também estiveram em cativeiro por um tempo. Em 2015, os três se instalaram em Schwabisch Gmund, localidade a 50 km de Stuttgart, sendo acolhidos por um programa do governo alemão para os refugiados iraquianos. O pai, Haji Hamid, de 53 anos, ficou no Iraque.

Em Schwabisch Gmund, Ashwaq conta que estudava alemão e queria encontrar um trabalho até que, em 21 de fevereiro, viu em um supermercado um homem descer de um carro e chamá-la pelo nome. 

"Me disse que era Abu Humam, disse a ele que não o conhecia, e começou a falar comigo em árabe", assegura à France-Presse a jovem vestida de preto, em sinal de luto por seus cinco irmãos e sua irmã desaparecidos desde que foram sequestrados pelos extremistas.

"Me disse: 'não minta para mim, sei muito bem que você é Ashwaq e que mora na Alemanha com sua mãe e seu irmão', sabia inclusive o meu endereço e outros detalhes de nossa vida" no país.

Imediatamente, a jovem entrou em contato com a polícia local. "Me disseram que era um refugiado como eu na Alemanha e me deram um número de telefone para ligar se ele se metesse comigo", acrescentou.

A polícia judicial de Baden-Wurtemberg afirmou recentemente no Twitter ter "aberto uma investigação em 13 de março de 2018", mas acrescentou que as investigações não podem "continuar por enquanto porque a testemunha (Ashwaq) não havia sido localizada para responder algumas perguntas".

A Promotoria federal "estudou o caso", confirmou um porta-voz à France-Presse. "Mas, por enquanto, diante dos elementos de prova disponíveis, não pudemos identificar com certeza suficiente o suposto autor".

A Promotoria alemã abriu investigações por terrorismo, crimes contra a humanidade e crimes de guerra contra refugiados ou solicitantes de refúgio suspeitos de estarem envolvidos em ações cometidas por grupos extremistas em Iraque, Síria ou Afeganistão. Baseiam-se em mensagens publicadas pelos próprios investigados nas redes sociais e em depoimentos de refugiados.

Medo 

Ashwaq assegura que viu com a polícia alemã as imagens de câmeras de segurança do supermercado onde ocorreu o encontro e está disposta a dar seus dados pessoais, mas não voltará à Alemanha.

Por medo de cruzar novamente com o carrasco, deixou a Alemanha no fim de março com sua mãe e seu irmão com destino ao norte do Iraque, onde diz viver torturada pelo medo devido ao fato de Abu Humam ter uma família em Bagdá.

No campo de deslocados do Curdistão iraquiano, onde se instalou, seu pai confessa que lhe custou permitir a volta de sua mulher e filhos depois de três anos sob jugo extremista no Iraque.

"Quando sua mãe me disse que havia visto esse extremista (...) lhe disse que voltassem, a Alemanha já não parecia um lugar seguro para eles", afirmou.

A vida para Ashwaq não é fácil, como tampouco é para as 3.315 yazidis que conseguiram fugir dos extremistas. "Todas as sobreviventes levam vulcões dentro delas, prontos para explodir" a qualquer momento, adverte Sara Samuqi, psicóloga que atende muitas yazidis. / AFP

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