Joel Saget/AFP
Joel Saget/AFP

Ex-espião americano com agenda própria controla uma CIA privada

Desde que se afastou da agência de inteligência há quatro anos, Duane Clarridge vem comandando uma rede de espiões no Paquistão e no Afeganistão; atualmente sem patrocínio de Washington, ele depende de doações para pagar seus agentes

, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2011 | 00h00

WASHINGTON

Duane R. Clarridge afastou-se da CIA (Agência Central de Inteligência) há mais de quatro anos, mas ele continua controlando uma rede de espiões de sua casa, perto de San Diego. Nos últimos dois anos, Duane enviou agentes para as montanhas do Paquistão e as regiões áridas e desérticas do Afeganistão.

Como o Exército americano cortou os financiamentos para ele, em maio, Duane vem dependendo de doadores para pagar seus agentes que continuam reunindo informações sobre militantes combatentes, líderes do Taleban e tentando desvendar os segredos dos líderes em Cabul.

Maquinando planos que às vezes são uma combinação de um romance de Graham Greene e tramas tipo Espião versus Espião, típicas da revista Mad, Clarridge tentou colocar em descrédito Ahmed Wali Karzai, que há muito tempo está na lista da CIA, e enviou seus agentes para espionarem o meio-irmão dele, o presidente Hamid Karzai, na esperança de coletar restos de barba ou outras amostras de DNA que pudessem provar suas suspeitas de que o presidente afegão é viciado em heroína.

Clarridge, de 78 anos, que foi acusado de mentir ao Congresso no escândalo Irã-Contras e depois perdoado, é descrito por pessoas que trabalharam com ele como um sujeito impelido pela convicção de que Washington está inchado de diplomatas e advogados que impedem as tropas americanas de combater os inimigos e os líderes, no geral, confiam em aliados volúveis.

Seus informes - uma reunião de fatos, rumores, análises e notícias não confirmadas - eram considerados confiáveis o suficiente, até o ano passado, para serem usados no planejamento de ataques contra militantes no Afeganistão. E também abasteceram comentaristas conservadores, incluindo Oliver North, um compatriota seu da época do escândalo Irã-Contras e hoje analista da Fox News, como também Brad Thor, autor de livros de mistério envolvendo o Exército.

As operações de Clarridge são uma demonstração alarmante de como cidadãos privados conseguem explorar o caos das zonas de combate e as rivalidades dentro do governo americano para desenvolver sua própria agenda. E mostram também como a terceirização das operações de inteligência e militares levaram a operações clandestinas legalmente tenebrosas que divergem totalmente das metas dos EUA no campo da política externa.

Apesar do forte interesse de Clarridge em derrubar os líderes afegãos, o governo Barack Obama parece conformado em trabalhar com o presidente Karzai e seu meio-irmão suspeito de ter relações com narcotraficantes.

As operações privadas de espionagem, reveladas no ano passado por The New York Times, foram aproveitadas por um Exército desesperado por informações sobre seus inimigos e frustrado com a inteligência prestada pela CIA, agência que, segundo colegas, Clarridge encara com desprezo.

Clarridge não quis ser entrevistado, mas fez uma declaração comparando as atividades de seu grupo, chamado Eclipse Group, às da Agência de Serviços Estratégicos, precursora da CIA na 2.ª Guerra. "O Eclipse Group pode ser, possivelmente, um modelo eficaz para o futuro, fornecendo informações para autoridades dos EUA ."

O porta-voz do Pentágono, coronel David Lapan, não quis falar a respeito, mas declarou que, para o Departamento de Defesa, "confiar em informações não confirmadas e não verificadas, vindas de fontes privadas, pode colocar em risco a força e contaminar a informação coletada durante operações de inteligência regulamentares".

Desde os tempos em que travava guerras secretas para a CIA na América Central, até seu trabalho de consultoria nos anos 90 num plano para a inserção de soldados de Operações Especiais no Iraque, para derrubar Saddam Hussein, Clarridge tem sido um instigador resoluto da intervenção americana no exterior. Típicos do seu estilo beligerante são os seus comentários, feitos durante uma entrevista dada em 2008 defendendo muitas das mais conhecidas operações da CIA, incluindo as atividades para afetar o governo do presidente chileno Salvador Allende, antes do golpe que o derrubou, em 1973. "Às vezes, infelizmente, as coisas têm que ser mudadas de uma maneira desagradável", disse. "Vamos intervir sempre que decidirmos que é no interesse da nossa segurança nacional ."

Para ele, o governo Obama fez um pacto com o diabo, ao firmar um acordo com o presidente Karzai, foi o que disseram quatro de seus parceiros. Segundo eles, Clarridge acha que o presidente afegão acabará firmando acordos com o Paquistão ou o Irã e traindo os EUA.

Clarridge nasceu de uma família republicana em New Hampshire, acabou se tornando chefe da divisão da CIA para a América Latina em 1981e colaborou na criação do Centro de Contraterrorismo da agência, cinco anos depois.

No seu livro de memórias, de 1997, escreveu sobre como tentou forjar governos pró-americanos na Itália nos anos 70 e ajudar a administrar as guerras secretas do governo Reagan contra as guerrilhas marxistas na América Central, nos anos 80. / NYT - TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

PONTOS-CHAVE

Afeganistão

Clarridge enviou agentes para espionar o presidente afegão, Hamid Karzai, na esperança de coletar amostras que pudessem provar suas suspeitas de que ele é viciado em heroína

Chile

Em entrevistas, Clarridge defende muitas das operações da CIA, como as ações para afetar o governo do presidente chileno Salvador Allende (foto), antes do golpe de 1973

Nicarágua

Clarridge foi indiciado em 1991, acusado de mentir ao Congresso sobre o seu papel no escândalo Irã-Contras, mas foi perdoado em 1992 pelo presidente George H. Bush

Paquistão

Em abril, espiões contratados por Clarridge disseramque o mulá Muhammad Omar, que lidera o Taleban no Afeganistão, havia sido capturado por oficiais paquistaneses

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