Erin Schaff/NYT
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Ex-generais criticam Trump e acusam presidente de politizar Forças Armadas 

Líderes influentes do alto comando militar condenam uso político das tropas e as ameaças do presidente americano de enviar soldados para reprimir as manifestações contra o racismo e a violência policial 

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2020 | 04h00

A resposta agressiva de Donald Trump aos protestos contra a violência policial causaram um efeito raro nos EUA: uma revolta de ex-generais contra o presidente, acusado de politizar as Forças Armadas ao ameaçar enviar tropas para esmagar as manifestações. Nesta semana, pelo menos quatro importantes líderes militares romperam o silêncio e criticaram Trump. 

A dissidência mais surpreendente foi a do general James Mattis, que foi chefe do Pentágono até 2018. “Donald Trump é o primeiro presidente da minha geração que não tenta unir o povo americano – nem finge tentar. Em vez disso, ele tenta nos dividir”, disse Mattis, em carta publicada pela revista The Atlantic. “Estamos testemunhando as consequências de três anos sem uma liderança madura.”

Mattis é um dos militares mais respeitados dos EUA. Chamado de “Cachorro Louco”, ele foi chefe do Comando Central das Forças Armadas e secretário de Defesa de Trump. Em dezembro de 2018, pediu demissão por não concordar com a decisão de retirar as tropas americanas da Síria. Mesmo assim, saiu dizendo que jamais criticaria o comandante. O limite, segundo ele, foi a “militarização” da repressão aos protestos. 

“A militarização da resposta às manifestações cria um falso conflito entre as Forças Armadas e a sociedade civil”, disse o ex-general, em referência aos eventos de segunda-feira, vistos pelo comando militar como um gesto autoritário de Trump. A opinião foi compartilhada por vários analistas.

“Ao criar a sensação de que as Forças Armadas são um ator político partidário, Trump ataca a natureza do pacto civil-militar dos EUA”, disse Kori Schake, pesquisadora do centro de estudos American Enterprise Institute. “As Forças Armadas são profissionais”, disse Steven Levitsky, cientista político da Universidade Harvard. “O prestígio dá aos militares a capacidade de reagir, como estamos vendo agora.”

O estopim foi a decisão de reprimir um protestos pacífico, na segunda-feira, na Praça Lafayette, em frente à Casa Branca. O objetivo era limpar o local para que Trump pudesse caminhar até a Igreja de St. Johns, do outro lado da praça, para tirar uma foto com uma Bíblia na mão. 

Desde sexta-feira, o presidente estava furioso com os relatos de que ele havia sido levado para um bunker da Casa Branca, por razões de segurança, por causa dos protestos na Praça Lafayette. Segundo assessores, Trump precisava de uma demonstração de força. 

Ao lado dele, na caminhada até a igreja, estavam Mark Esper, chefe do Pentágono, e Mark Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, que usava roupa de combate. Ambos foram acusados de violar o juramento do cargo – e pelo menos dois altos funcionários do Pentágono pediram demissão.

O desconforto também foi causado pela linguagem usada por Esper, que havia se referido às cidades tomadas por protestos como “espaços de batalha”, sugerindo que os militares assumissem a repressão. De fato, na mesma segunda-feira, Esper remanejou cerca de 1,6 mil homens das bases de Fort Bragg e Fort Drum para os arredores da capital, deixando os veteranos militares em estado de choque. 

Na quarta-feira, Esper foi obrigado a dizer que não concordava com Trump e era contra o uso de tropas na repressão, o que irritou o presidente e colocou o Pentágono em rota de colisão com a Casa Branca. 

Além de Mattis, o ex-general John Allen, que comandou as tropas americanas no Afeganistão, e o ex-almirante Mike Mullen, que já ocupou a chefia do Estado-Maior Conjunto, criticaram o presidente. “Como se não bastasse os manifestantes pacíficos terem sido privados de seus direitos constitucionais (de protestar), a foto de Trump legitimou esse abuso com uma camada religiosa”, escreveu Allen na revista Foreign Affairs.

“Até agora, estava reticente em falar sobre questões que envolvem a liderança do presidente Trump, mas estamos em um ponto de inflexão e os eventos das últimas semanas tornaram impossível permanecer em silêncio”, disse Mullen. “Nossos cidadãos não são nossos inimigos, e nunca serão.”

Na quinta-feira, Trump chamou Mattis de “o general mais supervalorizado do mundo”. “A única coisa que Barack Obama e eu temos em comum é que ambos tivemos a honra de demitir Mattis”, tuitou o presidente – o que atraiu críticas de mais um ex-general. John Kelly, que foi seu chefe de gabinete, desmentiu o presidente. “Mattis não foi demitido. Trump claramente se esqueceu do que ocorreu ou está confuso”, disse. / NYT e WP

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