Suzanne DeChillo / The New York Times / AP
Suzanne DeChillo / The New York Times / AP

Ex-guarda de campo de extermínio que mentiu para entrar nos EUA é deportado à Alemanha aos 95 anos

Jakiw Palij passou anos no território americano até que os investigadores encontraram o nome dele em uma antiga lista nazista

O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 09h10

NOVA YORK, EUA - O último suspeito de crimes de guerra nazistas a ser deportado dos EUA foi retirado de sua casa na cidade de Nova York nesta terça-feira, 21, e será enviado à Alemanha, segundo informações da Casa Branca.

A deportação de Jakiw Palij, de 95 anos, ex-guarda de um campo de concentração, acontece 25 anos depois que os investigadores o confrontaram pela primeira vez sobre suas ações durante a 2.ª Guerra. Na ocasião, ele admitiu que mentiu para entrar nos EUA, alegando que passou todo o tempo dos conflitos sendo fazendeiro e trabalhando como funcionário de uma fábrica.

Palij viveu tranquilamente nos EUA como desenhista e depois como aposentado até quase 30 anos atrás, quando os investigadores encontraram o nome dele em uma antiga lista nazista. Além disso, um colega dele revelou que Palij “vivia em algum lugar dos EUA”.

Aos investigadores do Departamento de Justiça que apareceram em sua porta em 1993, o suspeito disse: “Jamais teria recebido meu visto se tivesse dito a verdade. Todo mundo mente”.

Um juiz retirou a cidadania de Palij em 2003 por “participação em atos contra os civis judeus” quando foi guarda armado no campo de Trawniki, na Polônia ocupada pelos nazistas, e emitiu a ordem de deportação no ano seguinte.

Contudo, Alemanha, Polônia, Ucrânia e outros países se recusaram a levá-lo e ele continuou a viver no limbo em uma casa no bairro do Queens, Nova York, com sua mulher, Maria. Sua presença contínua ofendia a comunidade judaica local, desencadeando protestos frequentes ao longo dos anos que contavam com frases como “seu vizinho é um nazista”.

De acordo com o Departamento de Justiça, Palij serviu em Trawniki em 1943, o mesmo ano em que 6 mil prisioneiros nos campos e milhões de outros mantidos na Polônia ocupada foram cercados e assassinados. Ele admitiu que trabalhou no local, mas negou qualquer envolvimento em crimes de guerra.

Pressão

Em setembro, todos os 29 membros da delegação do congresso de Nova York assinaram uma carta pressionando o Departamento de Estado a seguir com o processo de deportação. O embaixador dos EUA na Alemanha, Richard Grenell, tornou a decisão uma prioridade após chegar ao país.

A deportação surge após semanas de negociações diplomáticas, as quais a Casa Branca disse que o presidente Donald Trump apoiou. “Por meio de negociações extensivas, o presidente Trump e sua equipe defendem a deportação de Palij para a Alemanha e o avanço dos esforços colaborativos dos EUA com um aliado europeu”, informou a Casa Branca.

O Ministério do Interior e da Justiça da Alemanha e o gabinete da chanceler Angela Merkel não comentaram para onde Palij será levado e o que exatamente acontecerá com ele. Os procuradores alemães haviam dito que não parecia haver evidências o suficiente para acusá-lo de crimes de guerra.

A deportação de Palij é a primeira de um suspeito de crimes de guerra nazistas desde que a Alemanha concordou em 2009 em levar John Demjanjuk, um aposentado que morava em Ohio e era acusado de servir como guarda em campos de extermínio. Ele foi condenado em 2011 por participação em mais de 28 mil mortes e morreu dez meses depois, aos 91 anos, com seu recurso pendente.

Palij chegou aos EUA em 1949 sob a Lei de Pessoas Deslocadas, aprovada com o objetivo de ajudar os refugiados da guerra na Europa. Os oficiais dizem que ele participou como um guarda armado no programa nazista para exterminar judeus na Polônia ocupada em Trawniki. De acordo com a denúncia do Departamento de Justiça, ele serviu em uma unidade que “cometia atrocidades contra civis poloneses e outros”, e depois na SS em “uma unidade cuja função era reunir e prender milhares civis poloneses que trabalhavam de forma forçada”.

Depois da guerra, Palij manteve amizade com outros guardas nazistas os quais o governo disse que chegaram aos EUA com falsos pretextos similares ao dele. / AP

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