Fernanda Simas/Estadão
Fernanda Simas/Estadão

Ex-guerrilheira sonha com paz e carreira em TI

Jovem que ficou dos 8 aos 18 anos nas Farc entrou para o grupo porque queria estudar e diz que maior sequela do conflito é ser julgada por civis por ter sido membro da guerrilha

Fernanda Simas Enviada Especial / Cali, Colômbia, O Estado de S. Paulo

09 Outubro 2016 | 05h00

Após passar dez anos da infância e adolescência nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Yesenia León Quione – que pede para não ser confundida em razão do sobrenome, já que um dos líderes da guerrilha foi Guillermo León Sáenz Vargas, conhecido como Alfonso Cano – acredita que o acordo de paz com o governo colombiano é a única saída para o conflito que durou 52 anos no país. 

Hoje com 22 anos e há 3 em processo de reintegração à vida civil, a jovem conta que ainda enfrenta problemas em razão da sua dupla identidade. Aos 8 anos, Yesenia, nascida em Nariño, juntou-se às Farc para poder estudar, mas nunca pensou que ficaria lá até os 18 anos.

“Meu pai era da guerrilha, eu queria estudar, mas na cidade não deixavam. Então, fui até eles para estudar, mas de lá não me deixaram mais sair”, lembra a jovem, que agora cursa culinária enquanto termina o colegial para depois realizar o sonho de estudar tecnologia da informação (TI). 

Como todo guerrilheiro, Yesenia recebeu um novo nome quando passou a fazer parte da Frente 29 das Farc. Ela passou a ser chamada de Luanita. Nunca atuou na linha de frente de combate, mas era sempre uma das primeiras do grupo durante as caminhadas pela selva, na região de Cauca. 

“Sempre aprendi o seguinte: se você avistar um soldado não pode deixá-lo vivo ou ele volta para acabar com sua vida. Você acaba mentalizando isso”, conta Yesenia. 

Identidade. Os problemas com sua identidade começaram quando ela foi capturada pelo Exército. “Eram 5 horas e eu estava guiando o grupo. Parei para fazer xixi e vi algo se movendo. Era o Exército, mas meu grupo demorou a acreditar. 

Na troca de tiros, eu fui ferida na região da perna, eu queria gritar, mas não conseguia. Um soldado com um cachorro me encontrou, viu que eu estava ferida e me levou para um hospital. Eles (militares) me trataram muito bem, diferente do que eu havia aprendido.”

Depois de ser operada, Yesenia seria enviada para o programa de reintegração – que existe desde 1991 –, mas antes foi preciso comprovar que ela já tinha 18 anos. “Eu tinha o rosto de criança, ninguém acreditava em mim. A Cruz Vermelha precisou encontrar minha mãe e buscar toda a documentação do meu nascimento”, relembra. 

Novo caminho. Após ser capturada ou resgatada – a jovem usa os dois termos para se referir ao que ocorreu –, Yesenia, primeiramente, desejou voltar para as Farc. “Em Bogotá, a primeira senhora que me recebeu me mantinha trancada e isso me irritava. Eu vivia na selva, mas agora teria de ficar em um quarto”, afirmou Yesenia, em referência ao programa Bem Estar, que recebe as pessoas antes do processo de reintegração. 

Depois de conhecer a mulher que ficou responsável por ela, as coisas mudaram. A jovem lembra que saía para passear e descobriu que poderia voltar a estudar. “Eu tenho o grande sonho de aprender sobre computador”, afirma Yesenia, enquanto brinca com o filho de apenas 4 meses, André.

Ela espera rever os companheiros guerrilheiros um dia. “Nem todos que estão lá querem ficar lá, por isso achava bom o acordo (de paz). Tenho vontade de conversar com eles sobre tudo o que aconteceu”, diz a jovem, que atualmente mora em Cali e não conseguiu sair para votar em razão das fortes chuvas na região no dia do plebiscito. 

Ela explica que a vida não é simples e diz que, apesar das dificuldades, a pior parte é ser julgada por ter feito parte das Farc. “Dependendo de onde estou, se as pessoas sabem do meu passado, se afastam. Precisei me mudar de um bairro onde morava porque as pessoas pararam de falar comigo”, lamenta.

 

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