AP Photo/Mstyslav Chernov
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Ex-infiltrada em fábrica russa de notícias falsas conta detalhes sobre exército de trolls de Putin

Jornalista diz que 'é preciso ter acesso a notícias objetivas, debates públicos honestos e comunicação respeitosa, livre de propaganda, agressão, incitamentos à violência, ódio contra outras nacionalidades e fatos alternativos'

Entrevista com

Lyudmila Savchuk, russa que trabalhou em fábrica de fake news em São Petersburgo

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

03 Março 2018 | 21h00

WASHINGTON - A russa Lyudmila Savchuk começou a estudar a atividade de propagandistas do Kremlin na internet em 2014. No ano seguinte, infiltrou-se na Internet Research Agency, entidade acusada pelo Departamento de Justiça dos EUA de ser responsável por uma ofensiva de desinformação para interferir na eleição presidencial de 2016.

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Há pouco mais de duas semanas, a organização, 2 empresas e 13 cidadãos russos foram indiciados pelo procurador especial Robert Mueller, que chefia o caso. Apesar de ver a denúncia como um passo importante, Savchuk diz que a lista de acusados deveria ser mais extensa. Segundo ela, cerca de 1.000 pessoas trabalham na Internet Research Agency.

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"A desinformação, o jornalismo desonesto, a propaganda e o exército de trolls são uma ameaça ao mundo moderno”, declarou em entrevista por escrito ao Estado. “É preciso ter acesso a notícias objetivas, debates públicos honestos e comunicação respeitosa, livre de propaganda, agressão, incitamentos à violência, ódio contra outras nacionalidades e fatos alternativos.” 

Por que você decidiu investigar a Internet Research Agency, conhecida como a ‘fábrica de trolls’ da Rússia?

Eu sabia que era uma fábrica de trolls. Sou jornalista e estava interessada havia muito tempo nesse problema. Foi minha chance de penetrar no nível mais básico da propaganda do Kremlin e estudar as técnicas dos trolls. Eu também queria explorar como podemos combater o problema. 

O que a experiência te trouxe?

A desinformação, o jornalismo desonesto, a propaganda e o exército de trolls são uma ameaça ao mundo moderno. Eu e as pessoas que trabalham comigo falamos em restaurar a paz na internet e nos meios de comunicação, tanto dentro quanto fora da Rússia. É preciso ter acesso a notícias objetivas, debates públicos honestos e comunicação respeitosa, livre de propaganda, agressão, e fatos alternativos, incitamentos à violência, ódio contra outras nacionalidades. 

Quando você conseguiu se infiltrar na agência? 

Eu trabalhei na fábrica de trolls de maneira clandestina no início de 2015, de janeiro a março. Depois disso, continuei a estudar as ferramentas da propaganda na internet.

O que você aprendeu sobre a maneira pela qual eles tentam influenciar a opinião pública?

Os trolls usam os mesmos métodos para trabalhar com o público russo e estrangeiro. Eles criam contas falsas, semelhantes às contas de pessoas reais. Eles escrevem posts, postam fotos, se comportam como usuários de internet reais, fingem ser seus amigos e se mostram interessados nas discussões. Quando o troll começa a trabalhar, ele escolhe gênero, nome, profissão, país de residência e cria um personagem falso. Há muitos trolls que publicam milhares de comentários, fotos e vídeos todos os dias, dia e noite. A fábrica de trolls em São Petersburgo é apenas um entre muitos edifícios. O quanto eles afetaram os resultados de eleições em outros países ainda deve ser investigado.

Quantas pessoas trabalham na agência?

No edifício em que me infiltrei, até 1.000 pessoas. Recentemente, os trolls se mudaram para um prédio de escritórios maior.

Você recebe ameaças em razão de seu trabalho?

Sim. A mídia russa e os trolls organizam ações de bullying contra mim. A mídia estrangeira, às vezes, ataca minha imagem, dizendo que sou um ex-troll. Meu trabalho como pesquisadora da propaganda do Kremlin é perigoso. Na Rússia, os ativistas são presos, espancados e mortos.

Você acha que foi recompensada com o indiciamento de 13 russos nos EUA?

A lista não deveria ter 13 nomes, mas 2.013, 3.013 ou mais. Todo funcionário de uma fábrica de troll deveria estar na lista, mesmo que seja apenas um comentarista de Facebook de 20 anos. O indiciamento não deveria incluir apenas trolls, mas também funcionários da mídia de propaganda russa que trabalham lado a lado com trolls em todo o mundo. Ainda assim, fiquei muito satisfeita com o indiciamento, que é o primeiro passo para levar os criminosos à Justiça.

A acusação mostra que as atividades da Internet Research Agency foram além da internet e envolveram a organização de protestos na vida real. O New York Times disse que eles organizaram marchas rivais em Houston sobre o islamismo radical, seis meses antes das eleições. Quão importante são as interações na vida real para a estratégia da agência russa?

O objetivo do governo russo é criar caos em eleições e esferas da sociedade de outros países. Talvez, no caso dos EUA, mais do que apoiar Trump, os trolls tentaram desacreditar as eleições. Espero que outros países interrompam a propagação do Kremlin. A propaganda do ódio é uma doença contagiosa. Os cidadãos de outros países também precisam aprender a reconhecer trolls na internet, para que não acreditem neles nem propaguem eventos falsos.

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Por que os bots e trolls russos foram ativos depois do ataque que matou 17 pessoas em uma escola na Flórida no dia 14?

Trolls escolhem eventos negativos para criar uma atitude negativa em relação ao país em que esses eventos ocorrem. Os Estados Unidos são um dos principais “inimigos da Rússia”, diz a propaganda do Kremlin. Os propagandistas falam constantemente de eventos ruins em outros países e as pessoas que falam sobre problemas na Rússia são forçadas a calar a boca. 

O Brasil tem o terceiro maior número de usuários de Facebook e Twitter no mundo e terá eleições em outubro. Devemos nos preocupar com a interferência russa? 

O governo do Brasil deve tomar todas as medidas necessárias para proteger as eleições de possíveis interferências. O Brasil deve cooperar com as empresas de internet que possuem a habilidade técnica para detectar atividades de trolls e notícias falsas.

O que governos, empresas e cidadãos de todo o mundo podem fazer para se contrapor à propaganda russa online e à onda de desinformação promovida por pessoas dentro dos próprios países?

A tarefa principal de governos, cientistas e jornalistas em todo o mundo é interromper a disseminação da propaganda e da desinformação pelo Kremlin. Também é necessário identificar tentativas semelhantes das forças políticas locais. Políticos e empresários que cooperam com os propagandistas devem ser punidos. Estudiosos e projetos que se dedicam a combater esse fenômeno em todo o mundo devem se unir para traçar estratégias de enfrentamento dessa ameaça.

Perfil

Para se infiltrar na Internet Research Agency, a ‘fábrica de trolls’ da Rússia, a jornalista Lyudmila Savchuk contou com a ajuda do InfoPeace, um grupo de ativistas. Em 2015, ela processou o governo russo por ‘danos’ a sua imagem. Ganhou. Por ordem de um tribunal russo, ganhou uma indenização simbólica: 1 rublo (cerca de US$ 0,01).

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