Ex-inimigo volta no papel de aliado na Líbia

Belhaj, nomeado chefe do Conselho Militar de Trípoli, liderava um grupo islâmico considerado terrorista pelos EUA e ficou preso até renunciar à luta armada

Rod Nordland, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Abdel Hakim Belhaj sorria com certa amargura ao falar da sua curiosa situação. Sim, ele disse, foi preso por policiais malaios em 2004 ao chegar ao aeroporto de Kuala Lumpur, onde foi submetido a um interrogatório a mando dos Estados Unidos, e enviado à Tailândia. Sua mulher grávida, que viajava com ele, foi levada. A criança já estava com 6 anos quando ele a viu pela primeira vez.

Em Bangcoc, Belhaj conta que foi torturado durante alguns dias por duas pessoas que, segundo ele, eram agentes da CIA. Então, pior ainda, foi repatriado para a Líbia, onde foi jogado numa solitária e ficou por seis anos, três deles sem tomar um banho, um ano sem ver o sol.

Agora, este homem chefia o comitê militar encarregado de manter a ordem em Trípoli e afirma ser um grato aliado dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

E embora Belhaj admita que era chefe do Grupo de Combate Islâmico Líbio, que foi condenado pelos EUA como grupo terrorista aliado da Al-Qaeda, diz que não tem nenhum programa islâmico. Ele afirma que desmobilizará os combatentes sob seu comando, integrando-os ao Exército ou à polícia formal quando a revolução líbia terminar. Belhaj assegura que não guarda rancor por causa do tratamento que os EUA lhe dispensaram no passado. "Na realidade, foi muito duro, muito difícil", afirmou. "Agora estamos na Líbia e queremos um futuro de paz. Não quero vingança."

Quando os EUA e as outras potências ocidentais reconhecerem e ajudarem a financiar o novo governo que está tomando forma na Líbia, poderão se deparar com uma relação particularmente incômoda com islâmicos como Belhaj. Antes considerados inimigos na luta contra o terror, de repente foram investidos em cargos importantes - com as bênçãos dos EUA e da Otan.

Em Washington, a CIA não quis comentar o caso Belhaj nem seu novo papel. Um funcionário do Departamento de Estado, que pediu para não ser identificado, disse que o governo Barack Obama tinha conhecimento da formação islâmica dos combatentes rebeldes na Líbia e manifestou sua preocupação ao novo governo rebelde, o Conselho Nacional de Transição (CNT), que reiterou seu compromisso com os EUA.

"Nos últimos meses, o CNT disse as palavras certas e tomou as medidas corretas", disse o funcionário. Belhaj, de 45 anos, um homem sério, não muito alto, com uma barba espessa, entrou de repente em cena nas montanhas a oeste da capital somente nas últimas semanas antes da queda de Trípoli, como comandante de uma brigada de combatentes rebeldes.

"Ele nem fazia parte do conselho militar nas montanhas ocidentais", disse Othman Ben Sassi, membro do CNT na cidade de Zuwarah, oeste. "Ele não era nada, nada. Chegou na última hora, organizou algumas pessoas, mas não era o responsável pelo conselho militar nas montanhas."

Então veio o ataque a Trípoli, que caiu com uma rapidez inesperada, e Belhaj e seus combatentes concentraram-se no complexo fortificado de Bab al-Azizia de Muamar Kadafi, onde se distinguiram como combatentes relativamente disciplinados. Veterano da guerra contra os soviéticos no Afeganistão, Belhaj tem o que a maioria dos rebeldes em luta não tem - experiência militar de fato. Mas ele ainda não adotou uma patente militar (ao contrário de muitos rebeldes que rapidamente se nomearam coronéis e generais), "pois ela só cabe a membros do Exército", afirmou.

Usando novos trajes militares Belhaj foi entrevistado em seu escritório na Base Aérea Militar de Mitiga, em Trípoli, o lugar onde até 1970 existia a Base Aérea de Wheelus da Força Aérea dos EUA.

No fim de semana passado, Belhaj foi eleito comandante do Conselho Militar de Trípoli, que reúne várias brigadas de rebeldes que participaram da tomada da capital, decisão que provocou críticas entre membros liberais do CNT.

Mas sua nomeação teve amplo apoio de Mustafa Abdul-Jalil, o presidente do CNT. Ele disse que como ex-ministro da Justiça de Kadafi conheceu bem Belhaj durante as negociações que levaram à sua libertação da prisão, em 2010.

Belhaj e outros radicais islâmicos assumiram um compromisso histórico com o governo de Kadafi, que foi intermediado por Saif al-Islam, o filho do ditador que na época era considerado uma influência moderadora.

Os islâmicos concordaram em desmobilizar o Grupo de Combate Islâmico, substituindo-o pelo Movimento Islâmico Líbio pela Mudança, e renunciaram à luta violenta. "Mantivemos a promessa", disse Belhaj. "A revolução começou pacificamente, mas a repressão do regime a forçou a se tornar violenta."

Belhaj reconheceu que os islâmicos não tiveram nenhum papel na preparação da revolução contra o governo de Kadafi - que, ao contrário, foi um levante popular. "A revolução de 17 de fevereiro é a revolução do povo líbio e ninguém a pode reivindicar, nem os secularistas nem os islâmicos", afirmou. "O povo líbio é composto de pessoas que têm visões diferentes, e é preciso que todas as visões sejam englobadas e respeitadas."

Ele disse que 42 anos de governo de Kadafi na Líbia lhe ensinaram uma importante lição: "Ninguém mais poderá fazer a Líbia sofrer sob uma determinada ideologia ou determinado regime".

Depois que Belhaj e um pequeno grupo de camaradas líbios voltaram da jihad contra os soviéticos, constituíram o Grupo de Combate Islâmico Líbio e tinham uma base secreta no leste da Líbia; descoberta, foi bombardeada e muitos dos seus seguidores foram presos. Belhaj fugiu da Líbia no final da década de 90. A reação dos EUA aos acontecimentos do 11 de Setembro fez com que seu grupo fosse considerado terrorista. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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