Ex-inspetor prevê dificuldades em desarmar Assad

Chefe da missão da ONU que eliminou grande parte do arsenal de Saddam, australiano alerta que guerra civil ameaça planos na Síria

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2013 | 02h12

As conversas reservadas com Tariq Aziz, o vice de Saddam Hussein, estão ainda frescas na memória do diplomata australiano Richard Butler. Grisalho, com óculos fundo de garrafa, o iraquiano tinha sempre debaixo do bigode um charuto Cohiba e à mão um copo de uísque, enquanto denunciava a miséria de seu povo e acusava o chefe dos inspetores da ONU - posto que Butler ocupava no fim dos anos 90 - de espionar e sabotar o Iraque.

Buscar armas de destruição em massa dentro de uma ditadura árabe não é tarefa fácil, relembra a todo momento o diplomata australiano, e a regra vale tanto para o Iraque dos anos 90 quanto para a Síria de hoje. "No caso sírio, há o agravante da guerra civil em curso em todo território, o que deve tornar o trabalho ainda mais difícil", previu Butler, hoje pesquisador na universidade americana Penn State, em entrevista por telefone ao Estado.

Sob sua autoridade, inspetores da Comissão Especial das Nações Unidas (UNSCOM, na sigla em inglês) destruíram, entre 1998 e 1999, várias toneladas de agentes químicos de Saddam, arsenal capaz de provocar destruição brutal dentro e fora do Iraque. O sucessor do australiano na chefia dos inspetores, o sueco Hans Blix, confirmaria posteriormente que as armas iraquianas de destruição em massa de que se tinha conhecimento haviam sido destruídas no fim dos anos 90.

No entanto, o chamado "Relatório Butler", apresentado ao fim da missão, em 1999, deixou aberta uma brecha. Apesar dos dois anos de buscas e de mais de um milhão de páginas de documentos iraquianos analisadas, ele afirmava que era "desconhecido" o paradeiro de um "número não substancial" das armas de Saddam. Quatro anos depois, foi com base nessa incerteza - e "em alegações completamente falsas", diz hoje o diplomata - que o governo de George W. Bush invadiu o Iraque.

Butler compara inspeções de armas químicas ao jogo de rua em que o sujeito tem de adivinhar em qual dos três copinhos foi parar a moeda. Você aponta a uma das alternativas sabendo que muito provavelmente acabará enganado.

No Iraque de Saddam, prédios escolhidos para inspecção eram esvaziados de um dia para o outro. Após encontrarem documentos importantes, investigadores internacionais acabaram mantidos por 48 horas em um estacionamento até o Conselho de Segurança da ONU emitir, de Nova York, uma reprimenda contra Bagdá. E, em 1998, os cerca de mil inspetores internacionais tiveram de abandonar em 24 horas o Iraque, enquanto EUA e Grã-Bretanha se preparavam para bombardear o país.

No caso da Síria de Bashar Assad, o australiano afirma que as coisas começaram bem. O acordo que russos e americanos firmaram em Genebra, no dia 14, é "um modelo", diz Butler. "Os três pontos fundamentais para acabar com armas químicas de um país estão nesse documento", afirma. Primeiro, a Síria terá de honestamente declarar o que possuiu e essa informação deve ser compatível com os dados de inteligência dos EUA e da Rússia - as potências estimam em mil toneladas o arsenal sírio. Segundo, inspetores deverão verificar o que disse a Síria, tendo acesso a pessoas que trabalharam no programa de armas químicas. Por último, é preciso destruir, remover ou tornar inócuo esse arsenal.

Zona cinzenta. Há dois grandes desafios à implementação do acordo sobre as armas de Assad, avisa o especialista. O mais imediato é o texto formulado por autoridades de Washington e Moscou. Ele argumenta que "o mundo mudou desde a Guerra Fria" e, para ter legitimidade, o plano precisa estar amparado em uma firme decisão do Conselho de Segurança da ONU. Russos, americanos e europeus discordam sobre os termos de uma resolução.

Mais complicada ainda será a "fase 2" do acordo de Genebra, com o início dos trabalhos de inspetores em território sírio. "Saddam tentava nos enganar o tempo todo e dizer que não poderíamos ter acesso a certos locais. E se na Síria alegarem que não podem garantir o acesso de inspetores, pois os rebeldes estão atacando? Quem arriscará o pescoço para descobrir se é verdade?"

Inspeções internacionais situam-se em uma zona cinzenta entre a diplomacia e a espionagem. A equipe de Butler era permanentemente alimentada com informações de agências de inteligência de vários países.

Ele reconhece que "muito provavelmente" houve casos de pura espionagem: por exemplo, alguns de seus subordinados, depois de reuniões sobre temas sensíveis, repassavam dados às embaixadas de seus países, em violação ao mandato da ONU. O vice de Saddam repetidamente acusava a missão da ONU de ser uma fachada para espionar o Iraque. Butler diz que Aziz lhe confessou uma noite que iraquianos usaram armas químicas contra o Irã, em 1988, e queriam manter um estoque "para se defender dos judeus".

A estratégia do australiano consistia em tentar convencê-lo de que as inspeções eram do interesse de Bagdá, pois, caso funcionassem, as sanções seriam levantadas. Naquele momento, já havia forte escassez de comida e de produtos básicos em todo Iraque, resultado de um cerco internacional sem precedentes. Com a invasão americana, Aziz se entregou e acabou condenado à morte por alta traição. Ele, atualmente, aguarda em uma cela o dia de sua execução.

Butler diz que o mesmo argumento que usava com o premiê iraquiano vale para as autoridades de Damasco que lidarão com os inspetores. "Se pudesse, diria a Assad que o sucesso das inspeções interessa aos sírios. Depois do erro de ter usado armas químicas (na periferia de Damasco), eles nunca mais terão a oportunidade de fazer isso. Um ataque assim jamais será tolerado novamente. O jogo acabou para eles também."

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