Ex-líder chinês relembra massacre

Em livro póstumo, Zhao Ziyang conta sua versão sobre tragédia na Praça da Paz Celestial e elogia democracia

Tania Branigan, The Guardian, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

Gravadas secretamente, as memórias do ex-primeiro-ministro chinês (1980-1989) Zhao Ziyang, líder do Partido Comunista afastado por se aliar a estudantes durante a repressão aos protestos na Praça da Paz Celestial, em 1989, devem ser divulgadas, quatro anos após sua morte.Nas fitas, Zhao denuncia a "tragédia" do assassinato de manifestantes e desafia a subsequente recusa do partido em realizar reformas democráticas. As gravações foram feitas em 2000, quando o ex-dirigente cumpria 16 anos de prisão domiciliar. O material foi contrabandeado para fora da China e será publicado este mês em chinês e inglês, dias antes do 20º aniversário do massacre. O livro tem o título de Prisioneiro do Estado: o diário secreto de Zhao Ziyang.Nas gravações, o ex-burocrata elogia a democracia ocidental e insiste que os ativistas não tentavam derrubar o sistema, de acordo com trechos obtidos pela Reuters. "Na noite de 3 de junho (de 1989), enquanto estava sentado no pátio interno de casa com minha família, escutei muitos disparos", escreveu Zhao. "Não fomos capazes de evitar uma tragédia que chocou o mundo." "Eu tinha dito na época que a maioria das pessoas apenas pedia para que corrigíssemos nossas falhas. Elas não tentavam derrubar nosso sistema político", acrescentou. Reformas políticas e econômicas exacerbaram as tensões entre os linhas-duras e reformistas dentro da liderança do partido. Os protestos evidenciaram o quanto estava em jogo e forçaram os debates a um clímax.Quando Deng Xiaoping, que mantinha o poder nos bastidores, decidiu impor a lei marcial com o apoio dos linhas-duras e da liderança do PC, Zhao foi o único a discordar. "Disse a mim mesmo que, não importava o que acontecesse, eu me recusaria a ser o secretário-geral (do Partido Comunista), responsável por mobilizar o Exército contra os estudantes."Nas gravações ele também elogia a democracia parlamentar ocidental. "Se não avançarmos na direção desse objetivo, será impossível solucionar as condições anormais da economia de mercado chinesa", diz nas memórias. Zhao, que depois de sua queda era mantido sob intensa vigilância em sua casa, manteve tamanho segredo sobre a gravação das suas memórias que nem mesmo seus parentes sabiam do projeto.Ele gravou cerca de 30 horas em fitas da Ópera de Pequim e de músicas infantis. As fitas foram então contrabandeadas por três ex-funcionários de alto escalão do governo."As pessoas achavam que Zhao estava provavelmente amargurado e com o espírito quebrado. No mínimo, havia tamanho aparato de vigilância ao seu redor que seria impossível para ele divulgar seus comentários finais sobre a Praça da Paz Celestial. Mas ele conseguiu registrá-los - e ninguém ficou sabendo", disse ao Guardian Adi Ignatius, um dos editores da versão das gravações publicada em inglês. "Será um lembrete a todos de como o desenlace dos protestos poderia ter sido diferente. Tratou-se de uma disputa de poder nas altas esferas do governo - e o caso nada teve a ver com a repressão a uma rebelião violenta." A preocupação com o vazamento de notícias relacionadas ao projeto era tamanha, que a editora Simon & Schuster listou a obra como "Sem título - autor anônimo" no seu catálogo. Apesar da provável censura na China, Ignatius diz esperar que chineses possam ler trechos publicados na internet.

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