Ex-líder comunitário quer renovar oposição ao governo Maduro

CENÁRIO: Girish Gupta / CHRISTIAN SCIENCE MONITOR

O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2014 | 02h03

As ruas de Caracas voltaram ao normal apenas seis meses depois dos maiores protestos contra o governo em mais de uma década. Dezenas de milhares de manifestantes enfurecidos com a frustrante situação econômica e a criminalidade fora de controle passaram semanas marchando, queimando pneus e pedindo uma mudança de liderança. Mas, por mais que as ruas estejam calmas novamente, a eleição de um novo líder da oposição pode representar para o governo socialista da Venezuela um desafio de prazo mais longo.

Jesús "Chuo" Torrealba é o novo secretário executivo da Mesa da Unidade Democrática (MUD), um grupo que abrange diferentes partidos de oposição. O trabalho dele é reunificar a MUD após dois anos tumultuados de derrotas em eleições nas quais havia muito em jogo, ajudando a escolher um candidato para enfrentar o presidente Nicolás Maduro na próxima eleição.

"(Torrealba) sem dúvida compreende melhor a dinâmica nas favelas e é capaz de atrair os chavistas desiludidos", diz Diego Moya-Ocampos, analista do centro de estudos IHS, em Londres. Mas isso pode não ser "o bastante para virar a mesa" em favor da oposição, diz Moya-Ocampos.

Nos últimos 15 anos, desde a ascensão de Hugo Chávez ao poder, a oposição luta para ganhar espaço do governo chavista.

Historicamente liderada por representantes da classe mais rica da Venezuela, a oposição é vista como distante dos pobres, cuja esmagadora maioria elegeu o ex-presidente Chávez.

Torrealba diz que seu currículo faz dele o homem capaz de romper esse padrão. "Durante toda a vida, morei em áreas pobres", diz ele em entrevista ao Christian Science Monitor. "Mas, na Venezuela, dispomos dos recursos para construir um país de primeiro mundo. Em vez disso, estamos regredindo." Ex-líder comunitário de Caracas, durante anos Torrealba apresentou um programa de TV, Radar de los Barrios, nos quais abordava temas enfrentados por bairros mais pobres.

Mesmo com o enfraquecimento gradual das manifestações de rua, a aprovação do governo de Maduro caiu para a casa dos 30%. A inflação na Venezuela está perto dos 60%, há escassez dos gêneros mais básicos, de xampu a repelente contra insetos, e o país sofre com uma das taxas de homicídio mais altas do mundo, com 53,7 assassinatos por 100 mil habitantes, de acordo com as Nações Unidas. ONGs locais dizem que o número é ainda mais alto.

Maduro ganhou as eleições em abril do ano passado, um mês após a morte de Chávez. A vitória foi conquistada por uma diferença inferior a 250 mil votos em relação a Henrique Capriles, o primeiro candidato da oposição a chegar perto de derrotar o governo. Muitos creditam o quase sucesso de Capriles a sua tentativa de atrair os pobres, visitando os bairros carentes e prometendo dar continuidade aos programas sociais de Chávez, ganhando apoio.

A tática teve impacto. Mas a mídia, favorável ao governo, deu destaque à riqueza da família dele, que é dona de uma rede de cinemas no país. As origens mais modestas de Torrealba podem mudar esse quadro. Embora Capriles se esforçasse para se apresentar como um dos pobres, muitos tinham consciência do fato de ele ter nascido em berço de ouro.

"Não desejo um retorno ao passado", diz Torrealba. "Todas as regressões ao passado são frustrantes e, infelizmente, é isso que estamos vivendo hoje." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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