The New York Times
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Ex-líder do Partido Comunista Chinês se defende em julgamento

Acusado de corrupção, Bo Xilai adota tom desafiador e afirma ter sido vítima de armação

O Estado de S. Paulo,

22 de agosto de 2013 | 13h02

JINAN - O ex-dirigente partidário chinês Bo Xilai, de 64 anos, defendeu-se inflamadamente nesta quinta-feira, 22, como réu no julgamento mais político das últimas décadas na China, dizendo que foi vítima de uma armação em uma das acusações de corrupção contra ele.

O ex-chefe do Partido Comunista na cidade de Chongqing é acusado de ter recebido subornos de quase 27 milhões de iuanes (US$ 4,41 milhões), além de cometer corrupção ativa e abuso de poder. É quase certo que ele será condenado.

O que ninguém esperava era que, nas suas primeiras declarações públicas desde que foi destituído do cargo, no começo de 2012, ele se mostrasse tão desafiador. Observadores dizem que ele pode ter feito um acordo com as autoridades, a fim de demonstrar que estaria recebendo um julgamento justo, em troca de uma sentença pré-arranjada.

Para o pesquisador da entidade de Nova York Human Rights Watch Nicholas Bequelin, "o resultado já foi decidido. Já há provavelmente um acordo entre Bo e o Partido (Comunista) quanto ao resultado."

Bo pertencia a uma ala mais à esquerda do partido, que se opõe ao viés capitalista adotado pela liderança chinesa nas últimas décadas. Sua queda expôs divisões dentro do regime comunista e na própria sociedade.

O réu chegou a ser candidato a um cargo no alto escalão do PC chinês e agora é julgado pelo maior escândalo político no país desde a deposição da Camarilha dos Quatro, no final da Revolução Cultural, em 1976.

Em tom muito sério, Bo ficou em pé, sem algemas, e se manteve com as mãos cruzadas à sua frente, sob escolta de dois policiais, como mostraram imagens da TV estatal. A imprensa estrangeira não pôde assistir ao julgamento e as declarações de Bo foram transmitidas pelo microblog oficial do tribunal, o que indica que podem ter sido fortemente editadas.

Mesmo assim, a transcrição oferecida pela corte marca um grau de abertura inédito em um julgamento na China. "Com relação à questão de Tang Xiaolin me dar dinheiro três vezes, eu certa vez admiti isso contra minha vontade durante a investigação da Comissão Central de Inspeção Disciplinar", disse Bo, referindo-se ao principal órgão disciplinar do partido.

"Estou disposto a arcar com as responsabilidades legais, mas na época não sabia das circunstâncias dessas questões: minha mente estava em branco". Segundo o tribunal, Bo também desviou 5 milhões de iuanes de um projeto do governo na cidade de Dalian, onde atuou como prefeito.

Ressaltando o apoio popular a Bo, algumas pessoas protestaram em frente ao tribunal pelo segundo dia seguido para denunciar o que afirmam ser uma perseguição política. A polícia dispersou a multidão.

A acusação de abuso de poder contra Bo diz respeito a um caso de assassinato envolvendo sua mulher, Gu Kailai, condenada pela morte do empresário britânico Neil Heywood em 2011. Heywood era um parceiro de negócios e amigo da família. Bo tentou acobertar o caso.

A condenação de Bo é praticamente inevitável, uma vez que os promotores e tribunais estão sob controle do Partido Comunista. O julgamento deve durar dois dias e o veredicto é esperado para o começo de setembro, segundo a TV estatal CCTV./ REUTERS

 

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