Ex-líder militar Muhammadu Buhari vence eleição presidencial na Nigéria

O ex-líder militar Muhammadu Buhari foi declarado ontem vencedor das eleições presidenciais na Nigéria. O presidente Goodluck Jonathan telefonou para o rival e o cumprimentou pela vitória, o que deve abrir caminho para uma inédita transição de poder entre um líder eleito do sul cristão para outro do norte muçulmano.

ABUJA, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2015 | 02h04

"Cerca de 5 minutos antes das 17 horas (horário local), o presidente Jonathan ligou para o general Muhammadu Buhari, vencedor das eleições, para cumprimentá-lo", disse Lai Mohamed, porta-voz do partido do presidente eleito, Congresso de Todos os Progressistas (APC). "Acredito que ele tenha reconhecido a derrota (no telefonema a Buhari)."

Episódios violentos entre partidários de Buhari no sul do país e suspeitas de fraude na contagem dos votos fizeram com que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos pressionassem o governo nigeriano pela garantia da independência da comissão eleitoral que monitora a eleição no país mais populoso da África.

"Sempre houve o temor de que ele pudesse não reconhecer, mas ele será visto como um herói por esse gesto", acrescentou o porta-voz. "A tensão irá diminuir dramaticamente."

Após a confirmação da vitória de Buhari - um ex-militar que comandou um golpe nos anos 80 e foi derrotado nas últimas três eleições nigerianas -, buzinaços foram ouvidos nas principais cidades do norte do país e da capital, Abuja. É a primeira vez na história da Nigéria que um partido de oposição chega ao poder democraticamente.

Em Kaduna, cidade de grande variedade religiosa no norte do país, onde 800 pessoas foram mortas em episódios de violência depois da última eleição nigeriana, em 2011, os apoiadores de Buhari tomaram as ruas agitando bandeiras, dançando e cantando em comemoração.

A vantagem de Buhari, em 35 Estados e no distrito federal, era de 2 milhões de votos. Até a noite de ontem, faltavam os resultados de Borno, Estado controlado em partes pelo grupo terrorista islâmico Boko Haram, que luta violentamente para estabelecer a sharia (lei islâmica) no nordeste da Nigéria.

O cômputo final com os resultados compilados pela Reuters deu a Buhari 15,4 milhões de votos contra 13,3 milhões de Jonathan, uma vantagem que deve tornar qualquer contestação jurídica irrelevante.

Queda. O Partido Democrático do Povo (PDP), de Jonathan, estava no poder desde o fim do regime militar, em 1999, mas vinha perdendo popularidade devido a uma série de escândalos de corrupção e à ascensão da insurgência islâmica do grupo Boko Haram no nordeste.

Críticos e partidários de Buhari concordam que ele é o único líder que não trataria a riqueza do petróleo como sua própria conta bancária. Durante seu curto período no governo, entre 1984 e 1985, ele tratou a corrupção com mão de ferro, punindo até funcionários públicos que chegassem atrasados ao trabalho.

"Se de fato Buhari se tornar presidente, mandará uma mensagem clara ao governo: não menospreze o povo nigeriano e sua democracia cada vez mais madura", disse a analista política Kadaria Ahmed.

Para o diretor executivo do escritório Cenítica e Advocacia Legal Clement Nwankwo, que monitorou as eleições, a vitória de Buhari representa uma "revolução democrática em massa para a Nigéria".

Avanços. Outro analista, Folarin Folarin Gbadebo-Smith, do Centro de Políticas Públicas Alternativas, disse que a vitória é "um grande passo rumo à democracia para um país que foi governado por militares até 1999".

"Conseguimos mudar pelo voto um governo que não correspondeu às nossas expectativas", disse.

Conhecido também pelas violações de direitos humanos durante seu governo, Buhari tem o desafio de mostrar que pode se adaptar às regras democráticas. "Ninguém sabe como ele vai se comportar num Estado de direito", disse Manji Cheto, da Teneo Intelligence.

O passado militar de Buhari é visto como vital na ofensiva contra o Boko Haram. No ano passado, ele escapou ileso de um atentado do grupo.

Derrotar a milícia, que ganhou força na Nigéria durante o governo de Jonathan, é uma das promessas de Buhari, de 72 anos. A outra é acabar com a corrupção generalizada que tomou conta do país. Apesar de se colocar como muçulmano moderado, o presidente eleito é visto com ressalvas por parte da população cristã por já ter defendido a implementação da sharia, a lei islâmica, no norte do país.

Nas últimas semanas, uma ofensiva militar de Nigéria, Chade e Camarões obrigou o Boko Haram a recuar. / AP, REUTERS e AFP

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