Photo by - / various sources / AFP)
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Ex-líderes das Farc aderem à dissidência e voltam à luta armada na Colômbia

Ex-negociador de acordo de paz, Iván Márquez e outros dois ex-guerrilheiros se unem à dissidência e prometem aliança com ELN

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 13h06
Atualizado 29 de agosto de 2019 | 19h49

BOGOTÁ - Ex-líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) anunciaram nesta quinta-feira, 29, que estavam retomando a luta armada, entre eles Iván Márquez, Jesús Santrich e Henry Castellanos, conhecido como “Romaña”. A decisão é um duro golpe para o acordo de paz de 2016 e foi criticada por ex-guerrilheiros que assumiram posições de liderança na política colombiana.

O anúncio acontece quase três anos após o grupo rebelde assinar o acordo de paz com o governo, que levou ao desarmamento de 7 mil homens e mulheres. Na ocasião, a antiga guerrilha virou um partido político com as mesmas siglas – Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc). 

Ex-negociador vê traição de Duque a acordo de paz

Logo após o anúncio, o presidente da Colômbia, Iván Duque, anunciou uma ofensiva contra os rebeldes que se distanciaram do pacto, elaborado para pôr fim a meio século de conflito. Duque, que se opôs a vários aspectos do acordo, se referiu aos guerrilheiros como “criminosos” e disse ter ordenado a formação de uma unidade especial para persegui-los. 

Iván Márquez, número 2 da guerrilha, e Jesús Santrich, que fugiu da Colômbia em julho, reapareceram em um vídeo de 32 minutos divulgado no YouTube, vestidos com indumentária militar e cercados de outros líderes e homens armados. 

No discurso, Márquez prometeu se aproximar do  Exército de Libertação Nacional (ELN) – última guerrilha ativa da Colômbia, que tem operado na fronteira com a Venezuela. Como principal argumento, ele afirmou que a continuação da luta é uma resposta à traição do Estado ao acordo de paz assinado em Havana, sob a presidência de Juan Manuel Santos

“A armadilha, a traição, a deslealdade, a modificação unilateral do texto do acordo, a violação dos compromissos por parte do Estado, as assembleias judiciais e a insegurança jurídica nos forçaram a voltar para a montanha”, disse Márquez, que há mais de um ano decidiu se afastar do pacto. 

Entre os argumentos dos dissidentes, há elementos importantes que precisam ser considerados, na opinião do coordenador do curso de Ciências Políticas da Universidade Nacional da Colômbia, Carlos Medina Gallego, para quem o governo já vinha dando sinais de não cumprimento do pacto. 

“As possibilidades de que esse grupo se converta em uma organização tão importante como chegaram a ser as Farc são realmente escassas”, afirmou Gallego, em entrevista ao Estado

O professor, representante do mundo acadêmico nas negociações em Havana, explica que, de acordo com as declarações dos dissidentes, a luta armada proposta agora não é contra a população, mas contra forças públicas e políticas classificados pelos rebeldes como “corruptas”.

“Eles fizeram um chamado profundo para que o governo retome a implementação do acordo e execute as ações necessárias para mostrar ao mundo que o país está levando adiante esse pacto”, afirmou Gallego.  

Grupo quer novo governo que apoie a paz

O anúncio, que Márquez disse ter sido filmado na Amazônia colombiana, coincide com uma série de obstáculos para o acordo, como o assassinato de centenas de ex-rebeldes e de ativistas de direitos humanos, atrasos no financiamento de iniciativas econômicas de ex-combatentes e uma polarização política profunda na Colômbia. 

O objetivo do grupo, segundo Márquez, é defender um novo governo que apoie a paz. Fontes de segurança disseram acreditar que a força comandada por ele pode chegar atualmente a 2,2 mil combatentes. 

Duque foi eleito presidente prometendo mudar partes do pacto, mas não obteve apoio do Congresso e nem da Justiça. Mesmo assim, o presidente vem repetindo que os ex-guerrilheiros que realmente quiserem se desarmar serão amparados.

Partido das Farc condena ‘golpe baixo’

O partido Força Revolucionária Alternativa Comum (Farc), criado após o acordo, e ex-negociadores de paz lamentaram o retorno às armas de Márquez e de seus companheiros, mas insistiram em defender o acordo que permitia o desarmamento de milhares de outros combatentes.

Também conhecido como Timochenko e presidente do partido, Rodrigo Londoño considerou um "golpe baixo" e uma "notícia infeliz" o anúncio de seus antigos camaradas, embora tenha dito que, de agora em diante, acaba a "ambiguidade" que existia em relação aos chefes rebeldes que não reconheciam o pacto.

"A grande maioria das pessoas que se mantiveram no processo continua nele porque acredita nisso, está convencida, tem preocupações, mas essa mensagem pode penetrar em alguns colegas indecisos, pode nos causar algum dano", acrescentou o ex-comandante da guerrilha em entrevistas de rádio.

Santos pede manutenção do acordo

O ex-presidente Juan Manuel Santos também reagiu. No Twitter, escreveu que "90% das Farc seguem em processo de paz. É preciso continuar cumprindo. Os desertores devem ser reprimidos com toda força. A batalha pela paz não para!".

Entre os oponentes ao acordo de paz, o ex-presidente e senador Álvaro Uribe criticou o anúncio. "O país deve estar ciente de que não houve processo de paz, mas o perdão para algumas pessoas responsáveis por crimes hediondos a um alto custo institucional", escreveu ele no Twitter. / AFP, EFE e REUTERS, COLABOROU RENATA TRANCHES 

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