Ex-locutor do Taleban comanda maior TV afegã

Massood Sanjer, que anunciou ordem de mulá Omar para destruir os Budas de Bamiyan, também apresenta um programa de denúncias em uma rádio

CLÁUDIA TREVISAN , ENVIADA ESPECIAL / CABUL, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2014 | 02h01

Em março de 2001, a voz de Massood Sanjer comunicou ao mundo que o líder supremo do Taleban, mulá Omar, havia ordenado a destruição dos budas gigantes de Bamiyan, no que se transformou em um dos principais símbolos da intolerância e extremismo do grupo islâmico que governou o Afeganistão por quase seis anos.

Sanjer era o locutor do serviço em inglês da Voice of Sharia - a versão local da Voice of America -, um boletim diário de 15 minutos que transmitia a visão oficial do Taleban. "Quando recebi o texto, não acreditei e fui falar com meu superior, que telefonou para o ministro da Informação. Depois de confirmar a ordem, ele disse que era verdade e o texto deveria ser lido como enviado", lembrou Sanjer em entrevista ao Estado na sede da TV Tolo, a primeira emissora comercial do Afeganistão, que detém 54% do mercado.

De 1996 a 2001, ele foi a voz do Taleban em inglês. Nesses seis anos, o Afeganistão mergulhou em um blackout de informação. A rádio oficial era a única fonte de "notícias" e a população foi proibida de ver TV, fotografias e de ir ao cinema.

Na interpretação radical do Alcorão feita pelo mulá Omar e seus seguidores, imagens humanas eram contrárias ao Islã, por supostamente permitirem o culto a ídolos. Essa foi a lógica que levou à destruição dos budas de Bamiyan, apesar dos apelos mundiais para que as estátuas fossem preservadas.

"Foi um dia sombrio para o Afeganistão", afirmou Sanjer, que deixou de ser o locutor do Taleban em 2001, quando o regime chegou ao fim, para se transformar no mais bem sucedido executivo da nascente indústria de mídia e entretenimento que está transformando o país.

Além de ser diretor-geral do grupo que controla três emissoras de TV e uma rádio FM, Sanjer é apresentador do mais popular programa de rádio de Cabul, a capital do Afeganistão, O jornalista de 36 anos recebe denúncias de corrupção e revela informações que o governo gostaria de manter longe dos ouvidos do público.

O mais recente furo de Sanjer foi o caso de estupro coletivo de quatro mulheres que catalisa a atenção dos afegãos. "Nós recebemos a informação de um ouvinte, mas a polícia negava que o crime tivesse ocorrido", disse Sanjer, que confirmou o fato com diferentes fontes.

No início de setembro, os sete homens responsáveis pelo estupro foram condenados à morte - anteontem, uma corte de apelação reduziu a pena de dois deles para 20 anos de prisão.

Com 800 empregados por todo o país, a TV Tolo tem instalações rudimentares em Cabul, onde funciona em duas casas - uma para o jornalismo e outra para o entretenimento. Mas seu crescimento foi exponencial desde sua fundação, há dez anos. Com a deposição do regime por tropas estrangeiras, em 2001, o ex-locutor tornou-se produtor em Cabul da Fox News, a mais conservadora emissora de TV dos EUA.

De lá, embarcou na empreitada da TV Tolo, fundada em 2004 pelo afegão-australiano Saad Mohseni, que voltou a seu país depois da queda do Taleban.

A emissora testa os limites do conservadorismo islâmico com a transmissão de novelas turcas e indianas nas quais mulheres aparecem sem véu e com roupas que revelam mais curvas que o aceito nas ruas de Cabul. Em 2010, Mohseni lançou o ToloNews, um canal de notícias 24 horas por dia dedicado a questões políticas, econômicas, internacionais e sociais - algo radical quando comparado à única emissora de rádio do Taleban.

"A televisão está mudando o país de várias maneiras, fazendo com que as pessoas pensem além dos limites tradicionais da geografia, família e etnia", afirmou Lotfullah Najafizada, que aos 26 anos dirige a ToloNews.

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