Ex-menino-soldado critica potências por conflitos na África

"Falta vontade política". Assim o ex-menino-soldado e sobrevivente da guerra civil em Serra Leoa, Ishmael Beah, avalia o papel das grandes potências e órgãos internacionais sobre os conflitos na África. Em entrevista ao estadao.com.br na segunda-feira, 9, o agora escritor afirma que muitas mortes e perdas poderiam ser evitadas se as grandes potências se importassem com os países que vivem verdadeiros genocídios. Beah, atualmente com 26 anos, teve sua infância interrompida no leste africano quando viu eclodir ao seu redor a guerra civil de seu país. Após ter sua família dizimada, se viu obrigado aos 11 anos a perambular e sobreviver sob condições precárias. Dois anos depois, se deparou com o exército de Serra Leoa e começou a criar laços, tendo necessariamente que tomar partido dos soldados na luta contra os rebeldes tribais - ou não receberia comida, abrigo e seria simplesmente deixado de lado para morrer. Após três anos participando dos combates, sob efeito de maconha, anfetaminas e "brown-brown" (um mix de cocaína com pólvora), ele diz que "perdeu a conta de quantas pessoas matou". Resgatado por tropas da Unicef, se tornou bacharel em ciências políticas e vive o que chama de uma "segunda vida" em Nova York. Beah chega ao Brasil para a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) divulgando seu livro Muito Longe de Casa - Memórias de Um Menino-Soldado, onde retrata sua trajetória. Membro do Comitê de Direitos da Criança da ONG Human Rights Watch, declarou ao estadao.com.br que o problema persiste porque "as pessoas só querem fazer algo quando seu país é afetado". Enquanto o problema está longe, ninguém se preocupa, os países simplesmente não têm vontade de tomar providências, e muitas mortes poderiam ser evitadas, explica. Mas para Beah, não são as organizações internacionais - como a ONU - que devem ser cobradas, mas sim os países que a comandam. "Normalmente países como os Estados Unidos, o Reino Unido, Alemanha ou China são quem tomas as decisões (por trás de organizações como estas), então se eles não querem fazer algo, não funciona." "Por quê esperam tanto?", indaga. Para o sobrevivente, que participou aos 16 anos do Young Voices da ONU, Ruanda é um exemplo. Quando houve o genocídio, diz ele, ninguém queria rotular como genocídio, porque "aí teriam que fazer algo". Origem das armas O autor, que demorou 3 anos para finalizar seu livro, alerta que as semelhanças que levam crianças a carregar armas são as mesmas, seja na África, Oriente Médio ou qualquer outro lugar. O mundo costuma olhar meninos-soldados sem esperança, sem perspectiva de que elas possam sair da situação que se encontram para uma nova vida. "Crianças sem perspectiva de vida são facilmente manipuláveis na guerra", diz ele, que ainda possui alguns amigos também sobreviventes do conflito. "Não há opções (para essas crianças). Ninguém tem opções." Na verdade os locais onde ocorrem guerras civis não produzem armas. "De onde vêm essas armas? Como essas armas terminam na favela, ou em Serra Leone?" pergunta, apontando que a falta de cooperação política permite que alimentem estas guerras com armas, que chegam até as crianças. Beah conta que em seu país, existem diamantes, que são trocados por armas e financiam a guerra. Rio x Serra Leoa Quando questionado sobre a situação do Rio, onde desembarcou, fez paralelo entre a situação de Serra Leoa e o que vivem as favelas cariocas. Para o escritor, a cidade não vive uma guerra civil generalizada como seu país, mas as crianças estão envolvidas nos combates, portando armas e privadas de sua infância e estudos da mesma forma. Após ter vivenciado a guerra e conseguido escapar, Beah acredita que sua missão nessa nova chance de viver é fazer o máximo possível para que outras crianças não passem por tudo que ele precisou passar. Ele acredita que algumas pessoas não precisam passar por horrores da guerra ou determinadas situações para que dêem valor à vida ou sejam felizes com o que têm. Mas há o lado positivo, e é justamente esse tipo de felicidade, e o calor humano, que o africano aponta como principal semelhança entre o Rio e seu país. Quando chegou no Brasil, Beah se sentiu em casa. "Há muitos problemas, mas as pessoas continuam felizes, e abertas, e podem se divertir do jeito mais simples (...) Há uma simplicidade, que sinto ser similar (à Serra Leoa). O clima de Nova York é outro, comenta. Lá as pessoas possuem muitas coisas mas não são felizes. O Brasil já se parece mais com Serra Leoa, pela simplicidade do povo, que não possui muito e parece sempre feliz e receptivo, no belo cenário das praias do Rio.

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