Edgard Garrido / REUTERS
Edgard Garrido / REUTERS

Ex-mulher de Nisman desafia linha oficial e descarta hipótese de suicídio

Juíza que foi casada com promotor que denunciou presidente Cristina diz não confiar na imparcialidade da apuração do caso

Rodrigo Cavalheiro, de BUENOS AIRES / CORRESPONDENTE, O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2015 | 21h00


No dia seguinte à marcha que reuniu 400 mil no centro de Buenos Aires em homenagem ao promotor Alberto Nisman, sua ex-mulher disse não admitir a hipótese de suicídio e pôs em dúvida a lisura da investigação. Nisman foi encontrado morto no dia 18 de janeiro com um tiro na cabeça e relatórios diários divulgados pela promotora Viviana Fein, que investiga o caso, enfraquecem gradualmente a hipótese de assassinato.

Em entrevista a rádio Vorterix, a juíza respondeu indiretamente a críticas da presidente Cristina Kirchner, afirmando que suas filhas estavam alegres pela mobilização em memória de Nisman. A presidente disse na semana passada que os participantes da marcha representavam o ódio e seus militantes deveriam ficar com a “alegria”.

Sandra Arroyo Salgado disse não acreditar na possibilidade de um suicídio de do promotor “por sua personalidade e porque não tinha motivos”. “Muito menos como isso foi apresentado, com uma arma”, acrescentou. A juíza está tão convencida de um crime que encomendou a um profissional uma autópsia psicológica do ex-marido. O especialista tentará falar com os que conviveram com o promotor até três dias antes de sua morte, além de analisar seus hábitos.

Na quinta-feira, foi confirmado o resultado do exame toxicológico feito no cadáver. A análise detectou pequena quantidade de álcool, clonazepam (Rivotril), usado no tratamento de ansiedade e depressão, e alta dose de café. “Nesta situação judicial, política e de cobertura midiática, não estão dadas as garantias para uma investigação totalmente imparcial e sem riscos”, afirmou. Na semana passada, ela pediu que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos acompanhe o caso e solicitou um observador internacional.

O promotor foi encontrado morto em seu banheiro depois de acusar a presidente, o chanceler Héctor Timerman e outros dirigentes kirchneristas de proteger altos funcionários iranianos indiciados pela Justiça por participar do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) em 1994, que matou 85. Segundo Nisman, gravações provam que o governo fez um acordo com o Irã para que os acusados fossem ouvidos em seu país, em troca de vantagens comerciais para a Argentina.

Depoimentos. A garçonete Natália Fernández, que afirmou ao jornal Clarín ter visto peritos tomando chimarrão e comendo doces no apartamento de Nisman enquanto recolhiam as primeiras provas, reafirmou ontem o que disse em depoimento à promotora Fein. Ela foi levada ao apartamento porque a lei exige a presença de testemunhas durante a perícia. O espião Horacio Stiuso, que teve o testemunho tomado em segredo na terça-feira, alegou que não atendeu às ligações feitas por Nisman no dia anterior a sua morte, registradas em celulares em seu nome.

 

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