Ex-mulher de Nisman pede saída de promotora

Juíza Sandra Arroyo Salgado, que não acredita na tese de suicídio, solicita formalmente que a investigadora Viviana Fein deixe o comando do caso

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

17 Março 2015 | 02h02

A ex-mulher do promotor Alberto Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salgado, solicitou formalmente ontem que a investigadora Viviana Fein deixe o comando do caso. Amanhã fará dois meses que o corpo do promotor foi encontrado com um tiro na cabeça, no banheiro de seu apartamento em Buenos Aires. Enquanto uma perícia contratada por Sandra assegura que houve um homicídio, a linha oficial aponta para a um suicídio.

A juíza, com quem Nisman teve suas duas filhas, alega que desde o dia da morte o trabalho de Viviana está "sob suspeita". Ela diz ter pedido que peritos acompanhassem a autópsia feita na manhã do dia 19, quando estava na Europa. Viviana respondeu que a solicitação nunca foi formalizada.

Insatisfeita com todos os indícios divulgados, que apontavam para um suicídio, a juíza contratou alguns dos mais renomados peritos do país para, a partir de vídeos e fotos produzidos pela equipe oficial, fazerem uma apuração paralela. A divulgação do resultado por Sandra assombrou especialistas, pois praticamente nada coincide entre as duas peritagens.

De acordo com o perito e médico legista Enrique de Rosa Alabaster, ex-professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), trata-se de uma estratégia da ex-mulher para levar o caso para a Justiça Federal. "O caso entrou na Justiça comum porque se presumiu que era um suicídio e se trabalhou para confirmar isso. Em outra esfera, é mais provável que Sandra, uma juíza federal, possa pressionar pela verdade", disse Alabaster ao Estado.

Segundo a equipe contratada pela juíza, Nisman morreu pelo menos 12 horas antes do apontado pela perícia oficial - na noite de sábado, 17 de janeiro, e não na manhã de domingo. Isso coloca a hora da morte mais próxima do momento em que o técnico em informática Diego Lagomarsino, que trabalhava para Nisman, diz ter emprestado o revólver calibre 22 de onde saiu o disparo. No fim de semana, descobriu-se que ambos tinham uma conta conjunta no exterior.

A análise privada indica ainda que o cadáver foi movimentado, enquanto a oficial diz que o corpo bloqueou a porta do banheiro, o que impediria a fuga de um assassino. Por último, o grupo contratado afirmou que Nisman agonizou. A investigação oficial afirma que a morte foi imediata.

Ao apresentar essas conclusões, no dia 5, Sandra omitiu o 12.º de 13 itens, que descrevia o modo como o promotor teria sido assassinado. Questionada, Viviana disse que ele não existia, o que levou a ex-mulher de Nisman a chamá-la de mentirosa.

Segundo o item 12, Nisman foi morto com o joelho direito no chão, de frente para sua banheira. A conclusão veio a partir de manchas de sangue que caíram na pia à direita e pela ausência de lesões que apareceriam se o disparo tivesse ocorrido com ele em pé.

Na visão de Alabaster, a diferença entre as peritagens não pode ser explicada por um erro. "Essa demora toda compromete o resultado. Talvez saibamos quem foi o autor do disparo, mas dificilmente o mentor."

O corpo de Nisman foi encontrado quatro dias depois de o promotor acusar a presidente Cristina Kirchner, o chanceler Héctor Timerman e outros dirigentes de proteger altos funcionários iranianos acusados de praticar o atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em 1994, que matou 85 pessoas.

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