Ex-parceiro chama Morsi de 'mestre do disfarce'

Na opinião de ex-colega do presidente egípcio na Irmandade Muçulmana, cordialidade do líder com Israel não é genuína

DIETER BEDNARZ, VOLKHARD WINDFUHR, DER SPIEGEL, SÃO JORNALISTAS, DIETER BEDNARZ, VOLKHARD WINDFUHR, DER SPIEGEL, SÃO JORNALISTAS, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2013 | 02h11

Análise

Mohammed Morsi pode ser muito simpático até mesmo para com os judeus, como se evidenciou numa carta extremamente amistosa que enviou a Israel em outubro. O presidente havia escrito pessoalmente a mensagem - para o credenciamento de seu novo embaixador em Tel-Aviv - para seu colega Shimon Peres, a quem tratou como "caro amigo". Na carta, Morsi invocou as "boas relações" que "felizmente existem" entre os países e prometeu "preservá-las e fortalecê-las".

O governo de Israel não havia esperado palavras tão calorosas de um presidente que havia surgido da Irmandade Muçulmana. Em dúvida se não seriam vítimas de uma falsificação, os israelenses publicaram a carta. Mas o governo do Cairo confirmou que ela era autêntica. E Israel - que havia perdido um parceiro confiável com a deposição de Hosni Mubarak - reagiu com alívio.

Mas Morsi, que tem prevista esta semana uma visita a Berlim, onde deve se encontrar com a chanceler Angela Merkel, uma defensora de Israel, parece ser um homem de duas faces. É conciliador como líder do Egito, dizendo que quer ser o "presidente de todos os egípcios", apesar de somente 25% dos 50 milhões de eleitores com direito a voto do país ter votado nele. E, é claro, insiste que o país cumprirá suas obrigações da era Mubarak.

Mas, em meados de janeiro, diplomatas e políticos ocidentais viram um Morsi diferente, um homem cheio de ódio pela "entidade sionista", termo que os islamistas usam para Israel. Um vídeo feito quase três anos atrás o mostra como um islamista quase espumando de raiva ao criticar os israelenses numa entrevista a uma TV árabe. Falando com voz profunda e firme, Morsi os chamou de "sanguessugas" e "militaristas" e disse que não pode haver paz com "descendentes de macacos e porcos".

Isso foi aparentemente mais do que um simples momento lamentável da loucura de Morsi, alega um importante ex-membro da Irmandade Muçulmana. Afinal, diz ele, o presidente foi inspetor-geral da organização islamista durante anos. Apesar da indignação internacional e da Casa Branca com o vídeo, Morsi ficou inabalável. No fim, seu porta-voz disse que as palavras do presidente foram citadas fora de contexto, mas não apresentou nenhum pedido de desculpa.

Para compreender o presidente egípcio e entender como a Irmandade Muçulmana molda seus membros, ajuda ouvir quem conheceu Morsi durante seu período no grupo - e também tem a coragem de falar abertamente sobre a organização. Abdel-Jalil al-Sharnoubi, de 38 anos, explica como isso pode ser perigoso. Em outubro, após ele ter falado sobre sua saída da Irmandade a jornais egípcios e tevês, homens mascarados abriram fogo contra seu carro com submetralhadoras.

Quando se encontraram pela primeira vez, em 2000, Sharnoubi e Morsi ambos já eram bem-sucedidos. Sharnoubi, filho de um imã do Delta do Nilo, entrou na Irmandade aos 13 anos. Subiu na hierarquia da organização para tornar-se um membro do comitê de informação. Morsi, por sua vez, havia entrado no Parlamento egípcio. Como os membros da Irmandade não tinham permissão de concorrer a cargos políticos no regime Mubarak, Morsi disfarçou-se de "independente".

Os dois haviam tido "muitos contatos" para espalhar a mensagem da Irmandade, segundo Sharnoubi. Para ele, Morsi era "um homem típico, que rapidamente se integrou à máquina". Na época, alega Sharnoubi, Morsi era "totalmente submisso à Irmandade". Morsi, aparentemente, opunha-se por completo a uma abertura do grupo, como Sharnoubi defendia. "Ele combatia qualquer democratização interna." Parecia "inconcebível" para Sharnoubi que o grupo de Morsi algum dia assumisse o poder no Egito. Mesmo na mais alta posição do governo, Morsi não pode ter jogado fora a missão da Irmandade como num terno velho, diz Sharnoubi. "Um homem como Morsi, com convicções tão arraigadas, não pode fazer isso. Se ouvirmos qualquer outra coisa dele, será uma fingimento."

Há muita coisa em jogo agora, diz Sharnoubi: as ajudas em dinheiro da Europa e dos EUA de que a periclitante economia egípcia carece urgentemente; e o próprio Morsi também precisa da boa vontade do Ocidente.

Sharnoubi não se surpreendeu com o vídeo de Morsi. "A agitação contra os israelenses está de acordo com a maneira com o que Morsi pensa. Para o Morsi que eu conheço, qualquer cooperação com Israel é um pecado grave, um crime." De fato, as gafes do vídeo não parecem ter sido uma ocorrência isolada. Em 2004, Morsi, então um membro do Parlamento, supostamente criticou os "descendentes de macacos e porcos", dizendo que não poderia haver "nenhuma paz" com os judeus. As observações foram feitas num momento em que soldados israelenses haviam acidentalmente matado três agentes policiais egípcios. Sharnoubi supõe que medidas cordiais como a carta a Peres só têm um objetivo: "Garantir e expandir o domínio da Irmandade". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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