Ex-prefeito catalisa o voto anti-Uribe

Favoritismo do excêntrico Antanas Mockus mostra que a Colômbia quer 'virar a página' e discutir novos temas além da segurança

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2010 | 00h00

Quando concorria à prefeitura de Bogotá, o hoje candidato presidencial pelo Partido Verde (PV), Antanas Mockus, costumava se vestir de Supercidadão - uma mistura de Super-Homem com Chapolín Colorado - e sair pelas ruas da capital colombiana para ensinar seus habitantes a jogar lixo no lixo e não pichar os muros. Hoje, é favorito para substituir Álvaro Uribe nas eleições do dia 30, ainda que a diferença entre o seu estilo e o do popular presidente colombiano seja abissal.

Avesso aos partidos políticos tradicionais e com grande capacidade de mobilização entre os jovens, Mockus subiu de 1% das intenções de voto para 38% em quatro meses. A três semanas da votação, está 12 pontos porcentuais na frente de seu rival, o ex-ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, herdeiro político de Uribe. Pesquisas apontam sua vitória também no segundo turno.

"A Colômbia descobriu que quer virar a página, esquecer as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e a disputa com Hugo Chávez e concentrar-se em temas como emprego e luta anticorrupção", diz o cientista político Gabriel Murillo, da Universidade dos Andes.

Sisudo, confrontador e convencional, Uribe vem de uma tradicional família de fazendeiros de Antioquia. Filho de imigrantes lituanos (seu nome completo é Aurelijus Rutenis Antanas Mockus Svickas), o candidato do PV é excêntrico e franco, embora hoje tente se mostrar mais sério que em seu passado de acadêmico e prefeito.

Para se ter uma ideia, ele ganhou fama nacional quando era reitor da Universidade Nacional nos anos 90 e, vaiado por 2 mil alunos que o impediam de fazer um discurso, resolveu reprimir o protesto de forma, digamos, heterodoxa. Baixou as calças e lhes mostrou o traseiro, numa cena que acabou no noticiário da noite. Todos se calaram, estarrecidos. "Pelo menos eles viram a cor da paz - branca", justificou.

Mas Mockus não é nenhum lunático. Pelo menos três fatores explicam sua ascensão e o primeiro está justamente relacionado a sua formação intelectual sólida e experiência em gestão. O candidato estudou matemática na França e é mestre em Filosofia pela Universidade Nacional.

Violência. Foi prefeito de Bogotá por dois mandatos, de 1995 a 1997 (renunciou para tentar a presidência) e de 2001 a 2004, ambos como independente. E nesse tempo ajudou a reduzir a violência e as mortes no trânsito com políticas como o fechamento de bares à 1 hora e campanhas para ensinar à população "regras de convivência" (que apesar das polêmicas deram resultado).

A segunda causa de sua ascensão é que Mockus soube lidar com a popularidade do atual governo e explorar os pontos fracos de seu opositor. A escolha de Santos como candidato governista resultou de um cálculo simples: Uribe tem 72% de aprovação graças ao avanço na área de segurança e na guerra às Farc. À frente da Defesa, Santos recebeu parte dos créditos por tais políticas. Logo, receberá também os votos dos que estão contentes com ela, certo? Errado.

O grande paradoxo do governo Uribe é que, ao reduzir a violência, ele fez com que o tema deixasse de ser tão importante para os colombianos.

Hoje só 6,8% dos eleitores o consideram uma prioridade, segundo o Instituto Gallup. Para 39,4% o desemprego (de 14%) deve ser a maior preocupação do novo presidente e 11,4% querem mais atenção à saúde.

Mockus não critica a política uribista para a segurança nem aceita dialogar com as Farc. Define-se como pós-Uribe, não pró ou anti-Uribe. "O legado de Uribe é tão valioso que temos de protegê-lo do próprio Uribe", disse certa vez. O foco de suas promessas são os avanços sociais e a guerra à corrupção.

Escândalos. Isso porque governo Uribe foi marcado por uma série de escândalos: escutas ilegais, execuções de civis por militares e os laços de deputados com paramilitares. Mockus propõe uma política de "legalidade democrática" em oposição à "segurança democrática" do atual governo. E a fama de honesto dá credibilidade a sua proposta.

Por fim, a terceira razão por trás da ascensão de Mockus diz respeito às alianças que aumentam a força de sua candidatura e suprem certas fraquezas (seus discursos, por exemplo, não são nada empolgantes). Entre os que se uniram à campanha está Sérgio Fajardo, ex-prefeito de Medellín, e mais dois ex-prefeitos de Bogotá (mais informações nesta página). O que pode fazer a diferença a favor de Santos, segundo analistas, é o voto rural, não captado nas pesquisas.

Outro porém: se Mockus vencer governará sem maioria no Congresso. O PV tem 5 das 102 cadeiras do Senado e 4 das 166 da Câmara. "Mockus diz que não entrará no jogo das negociações e trocas de favores", diz o cientista político Alejo Vargas, da Universidade Nacional. "Há um risco de que isso leve a um imobilismo no início do governo. Numa perspectiva otimista, o Congresso também pode se adaptar."

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