Eric Thayer / REUTERS
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Ex-prefeito de Nova York se torna líder da diplomacia paralela dos EUA

Sem cargo no governo, Rudolph Giuliani mantém encontros com lideranças de outros países e vira dor de cabeça para o Departamento de Estado

Beatriz Bulla CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 05h00

WASHINGTON - Conhecido no início dos anos 2000 como “o prefeito da América”, Rudolph Giuliani tornou-se nos últimos anos uma espécie de chanceler da diplomacia paralela de Donald Trump e maior expoente da base radical do presidente nos Estados Unidos

O ex-prefeito de Nova York tem a confiança de Trump como seu interlocutor. Tanto que Giuliani foi identificado como o responsável pela ofensiva americana sobre a Ucrânia para obter informações que pudessem prejudicar Joe Biden, rival político de Trump.

Dois sócios do ex-prefeito, Lev Parnas e Igor Fruman, chegaram a ser presos no ano passado no curso das investigações. O caso – e a atuação de Giuliani – levaram Trump a enfrentar um processo de impeachment no Congresso, rejeitado pelo Senado, que tem maioria republicana. 

Giuliani assumiu, então, o papel de articulador das novas táticas de ataque à oposição. Em redes de televisão amigáveis ao presidente, Giuliani repete desinformação sobre o coronavírus – ele já teve um de seus posts retirado do ar pelo Twitter – e críticas ao movimento Black Lives Matter

Sua nova ocupação a serviço do presidente lhe permite atuar como uma espécie de “secretário de Estado nas sombras”. Em entrevista ao Estadão, antes de participar por videoconferência de um evento no Brasil, ele repete temas centrais dos discursos caros à estratégia de campanha de Trump.

“O que realmente se torna importante para mim é o nível de entusiasmo. As pessoas que estão apoiando Biden o fazem porque odeiam Trump. Esse é um motivo para votar, mas não é um motivo realmente poderoso para votar”, disse ele. “Pessoas que apoiam Trump acreditam que ele foi um dos nossos maiores presidentes.”

Moscou e a interferência na eleição dos EUA 

Giuliani esteve no centro de um novo escândalo depois que a inteligência americana descobriu, há um mês, tentativas da Rússia de influenciar a eleição do país. Os russos, segundo o governo americano, estariam tentando prejudicar Biden. Um dos nomes identificados como parte do processo de interferência nas eleições, o ucraniano pró-Rússia Andriy Derkach, já teve reuniões com Giuliani.

O ex-prefeito nega  que tenha relação próxima com Derkach. “Não falei muito com ele. Eu mesmo investiguei isso”, afirmou ao Estadão. Sobre as inconsistências nas acusações contra Biden e seu filho, Giuliani diz ter sido “o melhor promotor dos últimos 50 anos” e rejeita furos em suas investigações. “Isso era corrupção para permitir que Biden seja eleito”, disse Giuliani. “Biden falhou em todas as missões de política externa em que esteve envolvido. Quando ele foi para a Ucrânia, seu filho foi contratado para trabalhar em uma empresa que era a mais desonesta da Ucrânia. A mídia americana vêm encobrindo os subornos de Biden há 30 anos.”

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O ex-prefeito de Nova York gosta de falar de sua capacidade de investigação, mas não responde à perguntas centrais sobre a interferência russa. “Não recebi nenhuma informação da Rússia. A informação que recebi é dos Estados Unidos. As informações que recebi da Ucrânia estão todas documentadas. Eu tenho todos os documentos. Tenho as conversas gravadas. Não há absolutamente nenhuma informação russa no decorrer da minha investigação. Isso é propaganda democrata.” 

Desde a vinda à tona do escândalo sobre a Ucrânia, os encontros de Giuliani com líderes estrangeiros são vistos como um problema dentro do Departamento de Estado. Ele afirma que são reuniões para tratar de assuntos privados, ligados a sua empresa de consultoria em segurança, apesar de ser frequentemente reconhecido por políticos estrangeiros como assessor de Trump. Entre abril de 2018, quando foi designado como advogado pessoal de Trump, e o final de 2019, Giuliani teve reuniões com autoridades do alto escalão de ao menos sete países, segundo levantamento da CNN

Um desses encontros foi com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Quando esteve em Nova York no ano passado para a Assembleia-Geral das Nações Unidas, Bolsonaro não participou de nenhuma reunião bilateral – a única foi uma reunião com Giuliani, em sala reservada do hotel. 

De procurador popular, a prefeito de Nova York

Na década de 80, Giuliani tornou-se popular como um procurador que enfrentou o crime organizado e a máfia de Nova York. Em meio ao aumento de homicídios na cidade, Giuliani entrou para a política com uma plataforma de defesa da lei e da ordem que o ajudou a se eleger prefeito. O argumento do republicano era de que ele salvaria os nova-iorquinos do crime e do caos -- uma plataforma similar à que Trump tem adotado ao tratar dos protestos antirracismo que se espalharam pelo país. 

A política de segurança foi eficiente para a redução dos homicídios, mas usou táticas agressivas contra os moradores da cidade, em especial as minorias, como negros. A estratégia de segurança de Giuliani é apontada como uma das raízes para o problema atual dos EUA de abuso de força policial de forma desproporcional contra negros e da divisão racial em uma das principais cidades do país. 

Giuliani defendeu policiais que mataram negros. Os nomes e histórias da época se acumulam, como os 41 tiros disparados contra Amadou Diallo, um imigrante da Guiné, que estava desarmado na frente do prédio onde morava procurando sua carteira. A polícia disse ter confundido ele com um estuprador. O caso levou o Departamento de Justiça a abrir investigação sobre o trabalho da polícia de Nova York. Giuliani nunca admitiu problemas na polícia. 

Ele terminou o primeiro mandato com uma taxa de aprovação de 62%, que despencou no segundo mandato até o atentado contra as torres gêmeas em 11 de setembro.  A aparição do ex-prefeito em meio aos escombros do local atacado e junto aos bombeiros se sobrepôs às primeiras reações do presidente, George W. Bush. A atuação foi considerada o melhor momento da vida pública do republicano.

Com a popularidade conquistada na época do atentado, Giuliani tentou a nomeação do partido republicano à presidência em 2008. Uma das críticas mais pesadas quando ele tentava a candidatura veio do democrata Joe Biden: "Só há três coisas que ele menciona em uma frase: um substantivo, um verbo e 11 de setembro. Não há nada além disso", disse Biden. A largada nas primárias do partido republicano foi frustrada e Giuliani desistiu da corrida.

Em 2016, Giuliani voltou a ganhar importância com a eleição de Trump. Amigo pessoal do presidente, com quem compartilha um estilo parecido, Giuliani passou a defender o então candidato na televisão quando poucos republicanos davam suporte a Trump.

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