Ex-premiê é deportado pouco depois de chegar ao Paquistão

Nawaz Sharif retorna ao país para promover campanha contra o atual presidente que o depôs em 1999

Agências internacionais,

10 de setembro de 2007 | 06h00

O ex-primeiro-ministro do Paquistão Nawaz Sharif foi deportado para a Arábia Saudita três horas após o desembarque no aeroporto nesta segunda-feira, 10. Após sete anos no exílio, o ex-premiê retornou ao país com o objetivo de liderar uma campanha para derrotar o presidente Pervez Musharraf, general aliado dos EUA que o derrubou durante um golpe militar.    Veja também: Sharif chega a Islamabad sem saber destino Sharif é impedido de descer do avião Paquistão prende centenas   Um grupo de comandos e funcionários de imigração retiveram Sharif no avião durante uma hora e meia, antes de permitir que ele deixasse o aparelho. O ex-primeiro-ministro passou cerca de quatro horas em Islamabad. Ao desembarcar de um vôo procedente de Londres, Sharif foi levado por autoridades locais e acusado formalmente de corrupção.   A seguir, o ex-chefe de governo recebeu autorização para embarcar em um vôo com destino a Jeddah, na Arábia Saudita, disseram funcionários do governo paquistanês. Segundo funcionário do governo, que não quis ser identificado, após desembarcar, ele foi colocado em prisão preventiva por causa das acusações de lavagem de dinheiro e corrupção. Cerca de 30 partidários de Sharif foram detidos.   O ex-premiê estava exilado em Londres e chegou a bordo de um avião da Pakistan International Airlines. Antes de deixar a Inglaterra, na noite de domingo, Sharif disse que Musharraf poderia tentar prendê-lo e deportá-lo, por isso, pediu que seu irmão, Shahbaz Sharif, permanecesse no país para liderar o partido caso algo acontecesse com ele no Paquistão.   O ministro do Interior paquistanês, brigadeiro Javed Iqbal Cheema, disse que Sharif "seria tratado de acordo com a lei", ao chegar ao país, mas não deu maiores detalhes.   Com a deportação de Sharif, Musharraf afasta pelo menos temporariamente um poderoso inimigo político, mas corre o risco de ver sua popularidade diminuir ainda mais e alimenta a percepção popular de que o general é um líder militar autoritário em um momento no qual ele pleiteia a renovação de seu mandato pelo Parlamento.   Musharraf viu seu poder reduzido em meio a uma fracassada tentativa de afastar o presidente da Suprema Corte do Paquistão. A iniciativa desencadeou manifestações nas ruas. Apesar disso, ele ainda pretende obter do Parlamento um novo mandato de cinco anos em votação marcada para meados de outubro.   Seu governo também está engajado em combates com extremistas islâmicos radicados na remota região de fronteira com o Afeganistão.   Shahbaz Sharif, irmão do ex-primeiro-ministro, disse que seu partido pretende ingressar com uma ação na Suprema Corte para reverter a deportação. Shahbaz Sharif pretendia retornar ao Paquistão junto com o irmão, mas foi dissuadido momentos antes do embarque em Londres.   "Este será descrito como o dia mais negro da história do Paquistão. Não tenho palavras para descrever minha tristeza", disse ele à emissora de televisão Geo.   O governo defendeu a deportação, levada a cabo mesmo depois de a Suprema Corte ter decidido que Sharif tem o direito de retornar ao Paquistão. Segundo o governo, a deportação é de "interesse supremo" do país.   Protestos violentos   A chegada de Sharif pode aumentar as tensões políticas no país e antes das eleições presidenciais e legislativas e dar início à violência nas ruas do país, e sua deportação tem potencial para alimentar episódios de violência.   Nesta segunda, oposicionistas entraram em choque com soldados paquistaneses nas vias de acesso ao aeroporto de Islamabad, que foram bloqueadas por caminhões, tratores e arames farpados. Ninguém conseguiu se aproximar do aeroporto.   Cerca de 200 partidários de Sharif atiraram pedras contra policiais que os impediam de chegar ao aeroporto. A polícia lançou bombas de gás lacrimogêneo em pelo menos dois lugares de Islamabad e em uma ponte numa estrada que leva à capital. Diversas pessoas ficaram feridas. Pelo menos quatro líderes oposicionistas foram colocados em regime de prisão domiciliar, informaram autoridades locais.   Iqbal Cheema, porta-voz do Ministério de Interior do Paquistão, disse que os líderes de oposição foram presos para "assegurar a manutenção da ordem pública" com base num dispositivo que permite ao governo deter suspeitos por até três meses sem a necessidade de apresentar acusações.   Os líderes detidos são Qazi Hussain Ahmed, Liaqat Baluch, Javed Hashmi e Raja Zafarul Haq, todos ligados politicamente a Nawaz Sharif.   Histórico   A deportação é o mais recente episódio de uma década de relações conturbadas entre Sharif e Musharraf.   Em 1998, quando era primeiro-ministro, Sharif indicou Musharraf para o posto de comandante do Estado-Maior das Forças Armadas. Um ano depois, quando tentou demiti-lo do comando militar do país, Sharif sofreu o golpe palaciano que levou Musharraf ao poder.   Sharif, acusado de corrupção e de ter negado permissão de pouso ao avião que transportava Musharraf, que voava com pouco combustível, foi preso, mas posteriormente acabou solto e recebeu autorização para exilar-se na Arábia Saudita desde que não retornasse ao país por uma década.   Musharraf repetiu em várias ocasiões que não permitiria seu retorno, mas no dia 23 de agosto, a Corte Suprema afirmou, após um recurso de Sharif, que qualquer paquistanês tem o direito de viver no país e que o ex-primeiro-ministro poderia voltar.   No último sábado, o príncipe Muqrin bin Abdulaziz Saud, chefe dos serviços secretos sauditas, adiantou que a Arábia Saudita estava pronta para acolher Sharif novamente.   Nesta segunda, um diplomata acreditado na Arábia Saudita disse que autoridades locais receberam Sharif no terminal real do aeroporto de Jeddah, pelo qual desembarcou. A fonte diplomática pediu para não ser identificada nem por seu nome nem por sua nacionalidade.   O partido do ex-primeiro-ministro, a Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz (PML-N), pediu nesta segunda-feira, 10, ao Supremo que impedisse uma possível deportação de Sharif, alegando que esta poderia significar um desprezo ao tribunal.   Nos últimos dias, centenas de membros do PML-N foram detidos em Islamabad, incluindo o ex-presidente do Paquistão Rafik Tarrar e o presidente interino da legenda, Javed Hashmi.   Com a proximidade do anunciado retorno de Sharif, o governo ordenou a reabertura de vários casos de corrupção que pesam sobre ele, embora o tribunal de contas que conduz o julgamento não tenha ordenado ainda sua detenção.   Sean McCormack, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, observou que "a deportação contraria o determinado pela Suprema Corte", mas recusou-se a aprofundar-se no assunto "porque o caso ainda está sendo avaliado pela justiça".   A União Européia (UE) criticou a deportação e defendeu que a autorização da Suprema Corte para que Sharif retorne ao país seja respeitada.Texto alterado às 19h07.

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