LUIS GANDARILLAS / AFP
LUIS GANDARILLAS / AFP

Ex-presidente boliviana tenta o suicídio na prisão

Segundo a mídia boliviana, Jeanine Áñez, acusada de genocídio na sexta-feira, cortou o antebraço

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2021 | 14h10

LA PAZ - A ex-presidente interina da Bolívia Jeanine Añez, que está presa, tentou cometer suicídio neste sábado, e está sendo atendida por médicos, disse um representante policial à mídia local.

"Está dentro do delito de tentativa de suicídio... o médico forense chegou ao local para fazer um diagnóstico da senhora Jeanine Añez, para fazer uma avaliação do estado que ela se encontra", disse a um canal de televisão Douglas Uzquiano, diretor da Força Especial de Combate ao Crime.

A mídia boliviana informou que a ex-presidenta fez cortes no antebraço.

Añez foi levada na quarta-feira pela terceira vez em duas semanas para o hospital, onde os médicos disseram que fizeram um exame de tórax, e que ela sofria de hipertensão. Mais tarde, ela voltou para a prisão.

A Procuradoria-Geral da Bolívia apresentou na sexta-feira (20) uma acusação contra Jeanine Áñez por “genocídio” e outros crimes, em razão da morte de cerca de 20 manifestantes opositores em 2019. O procurador-geral, Juan Lanchipa, disse que apresentou ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) um pedido de denúncia contra Jeanine, que está em prisão preventiva desde março. No entanto, a decisão sobre um julgamento cabe ao Congresso. 

O crime mais grave do qual ela é acusada, o de “genocídio”, que é sancionado com pena de 10 a 20 anos de prisão, de acordo com o Código Penal boliviano. A acusação tem origem na denúncia de parentes das vítimas da repressão, em 15 de novembro de 201,9 na cidade de Sacaba, próxima de Cochabamba, e em 19 de novembro, na usina de gás de Senkata, na cidade de El Alto, vizinha de La Paz, segundo o procurador. 

De acordo com uma investigação do Grupo Interdisciplinar de Peritos Independentes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), apresentada esta semana em La Paz, em ambos os eventos morreram 22 pessoas (11 em cada), do total de 37 mortes, após a renúncia do presidente Evo Morales

O procurador-geral, por sua vez, disse que em Sacaba e em Senkata houve 20 mortos. Segundo Lanchipa, esses eventos foram “provisoriamente classificados como genocídio, ferimentos graves e leves, além de ferimentos seguidos de morte”.

Em 12 de novembro de 2019, dois dias após a renúncia de Evo, a então segunda vice-presidente do Senado, a opositora de direita Jeanine Áñez, foi proclamada presidente interina. Ela deixou o poder em novembro, após a eleição de Luis Arce, um aliado de Evo, e foi presa em março. 

O TSJ deve pedir autorização ao Congresso para um “julgamento de responsabilidade”, que deve ser aprovado por dois terços do Parlamento, controlado pelo Movimento ao Socialismo (MAS), de Evo. A ex-presidente não comentou a denúncia, mas postou, na terça-feira, no Twitter: “Exigimos respeito à Constituição, garantias com o devido processo e igualdade de condições”. 

A ex-presidente, vários de seus ministros, ex-chefes militares e policiais são acusados pelo atual governo e pelo partido no poder de ter realizado um golpe contra Evo em 2019, com o apoio da Igreja Católica, da União Europeia, de políticos da direita boliviana e do centro, além dos governos do argentino Mauricio Macri e do equatoriano Lenín Moreno. 

A Bolívia entrou em convulsão após as eleições de outubro de 2019. Os resultados oficiais favoreceram Evo, que estava no poder desde 2006 e buscava a reeleição até 2025, mas a oposição denunciou uma fraude. Diante da pressão das ruas, o então presidente convocou novas eleições, com um órgão eleitoral renovado, mas nada deteve a violência social que levou Evo a renunciar e partir para o exílio no México. 

Um relatório de auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA), de dezembro de 2019, aponta que detectou “uma manipulação dolosa das eleições bolivianas”. No entanto, uma perícia do Ministério Público, divulgada no dia 27, concluiu que não houve manipulação nas eleições.

O procurador-geral disse que a investigação – que contou com o apoio do Grupo de Investigação Deep Tech Lab de Bisite, da Fundação Geral da Universidade de Salamanca – “demonstrou a inexistência de manipulação dos dados que comprovem a atuação dolosa incorrida nos resultados do processo eleitoral de outubro de 2019”. / REUTERS e AFP

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