Ex-presidente da Bolívia se diz "perseguido político"

O ex-presidente da Bolívia, Eduardo Rodríguez Veltzé, de 50 anos, disse que é um "perseguido político" no governo do seu sucessor, o presidente Evo Morales. Rodríguez Veltzé está sendo acusado de espionagem e de revelar segredos do seu país aos Estados Unidos. De acordo com a denúncia feita por Morales antes de tomar posse como presidente, em janeiro passado, seu antecessor teria permitido o embarque, ilegal, de 28 mísseis chineses, modelo HN-5, para serem destruídos no território americano. Se for condenado neste caso que ficou conhecido como "mísseis chineses", o ex-presidente poderá pegar até 30 anos de prisão, segundo o próprio Veltzé.O antecessor de Morales afirmou que os Estados Unidos tinham pedido a governos anteriores da Bolívia que o material bélico fosse destruído, sob argumento de que os mísseis são armas que podiam interessar a grupos terroristas. Rodríguez Veltzé garante que esse armamento saiu do país sem sua autorização e que, ao saber da denúncia, pediu que um grupo de militares bolivianos acusado fosse investigado. "Fui designado para realizar a transição democrática e permitir que o país tivesse eleições gerais e livres. Não cheguei à Presidência para estimular qualquer tipo de corrida armamentista", disse.Evo MoralesCom tom desanimado na voz, desabafou: "Eu me sinto um órfão político". Na entrevista à BBC Brasil, de sua casa, em La Paz, Rodríguez Veltzé disse que a denúncia contra ele foi "politizada" pelo Executivo, pelo Legislativo e pela Suprema Corte de Justiça. "Lamento que o presidente Evo Morales, que tem tanta coisa para fazer, insista numa acusação que não tem racionalidade", disse. Para ele, Morales segue, "equivocadamente", os passos do colega venezuelano Hugo Chávez - com a retórica contra os Estados Unidos - e vem "isolando" a Bolívia de seus vizinhos, principalmente, o Brasil. "Mas, como oficialmente as relações da Bolívia com Estados Unidos vão bem, estou sendo acusado de cometer um crime por um inimigo que não existe", afirmou.Rodríguez Veltzé era presidente da Suprema Corte de Justiça quando, em meio a mais uma crise política na Bolívia, assumiu, interinamente, a Presidência da República, em junho do ano passado. Sua posse ocorreu depois da renúncia do então presidente Carlos Mesa, que era vice do ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, que já tinha renunciado.Constitucionalmente, coube a Rodríguez Veltzé assumir o poder porque os presidentes da Câmara e do Senado também renunciaram. Foi naquela época, com os protestos pedindo a nacionalização dos hidrocarbonetos, que a candidatura de Morales ganhou ainda mais força.ProcessoNa semana passada, a Suprema Corte de Justiça enviou um pedido de autorização ao Congresso Nacional para processar o ex-presidente. Se o pedido for aprovado, Rodríguez Veltzé poderá ser condenado pelos magistrados, num processo de última instância. "Se este processo não tivesse sido politizado, as acusações não estariam concentradas só em mim, mas naqueles militares que estavam envolvidos no caso. Aqueles que eu pedi que fossem processados e que agora não estão sendo acusados", disse. As primeiras denúncias, em outubro do ano passado, eram de que os mísseis foram retirados da Bolívia com a ajuda de militares do Exército e de representantes da embaixada dos Estados Unidos em La Paz.Segundo ele, se continuar "sem direito a defesa", sua saída será apelar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, caso os magistrados decidam condená-lo."Acho que esse meu caso é só para distrair a população. Querem que eu seja um símbolo de combate à corrupção, mas acho que, no meu caso, o presidente e seu partido estão errados", disse. "Falta imparcialidade na Corte, no Congresso e na Procuradoria Geral da Bolívia", disse, insinuando, novamente, que todos parecem obedecer a vontade do atual governo.

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