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Ex-presidente da Libéria diz que seu processo é uma 'mentira'

Taylor responde por tortura, assassinato e estupro; ao depor pela em Haia, ele diz que acusações são rumores

14 de julho de 2009 | 08h24

Em seu primeiro depoimento no Tribunal Penal Internacional em Haia, na Holanda, o ex-presidente da Libéria, Charles Taylor, minimizou nesta terça-feira, 14, as acusações de crimes de guerra que pesam sobre ele, classificando-as de "mentiras". Taylor, de 61 anos, é o primeiro ex-chefe de Estado africano a ser julgado pela corte internacional e está sendo responsabilizado por armar e organizar grupos rebeldes da Libéria para tentar controlar minas de diamante do país vizinho, alem de 11 acusações da promotoria de crimes no conflito de Serra Leoa, entre elas: terrorismo, estupro, escravidão sexual, tortura, assassinado, uso de crianças como soldados e terrorismo.

 

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Um número estimado de 500 mil pessoas foram vítimas de assassinato, mutilações sistemáticas e outras atrocidades durante a guerra. Alguns dos piores crimes foram cometidos por "crianças soldados", que eram drogadas para anular seus sentimentos com relação ao horror de suas ações. É "muito, muito desafortunado que o processo, por causa de desinformação, informações erradas, mentiras e rumores, associe a mim tais títulos ou descrições", disse Taylor quando perguntado por seu advogado, o britânico Courtenay Griffiths, o que pensava sobre as acusações.

"Eu sou um pai de 14 filhos, tenho netos e defendi por toda a minha vida o que eu acho correto sob os interesses da justiça e honestidade", disse Taylor ao tribunal. "Eu me sinto mal com essa caracterização que é feita de mim. É falsa, é mal intencionada", acrescentou. Vestindo um terno cinza e óculos escuros, o ex-presidente falou com segurança ao se apresentar ao painel de três juízes como o 21º presidente da República da Libéria.

 

"Diamante de sangue"

Os promotores do Tribunal Especial para Serra Leoa, apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), dizem que Taylor liderou e armou rebeldes com o objetivo de conquistar o controle do país do oeste africano e sua vasta riqueza mineral, principalmente os chamados "diamantes de sangue", extraídos por trabalhadores escravos. Mas Taylor afirmou que as acusações tiveram o objetivo retirá-lo do poder. "Todo esse caso tem sido sobre 'vamos pegar Taylor'", disse ele. "Eu não sou culpado de todas essas acusações." O depoimento do ex-presidente tem como objetivo persuadir os juízes de que as 91 testemunhas apresentadas pela acusação desde janeiro de 2008 estão mentindo.

 

Algumas dessas testemunhas afirmaram que Taylor enviou armas para os rebeldes em sacos de arroz, numa contravenção ao embargo de armas, e, como pagamento, recebeu diamantes contrabandeados das minas de Serra Leoa em vidros de maionese. Ele negou a acusação. "Eu nunca recebi, nem em vidro de maionese, café ou outro produto, qualquer diamante da RUF", afirmou, referindo-se à Frente Revolucionária Unida (RUF, pela sigla em inglês), que ele supostamente apoiou. Griffiths disse que seu cliente vai testemunhar sobre seus "extenuantes esforços para levar a paz a Serra Leoa".

Instabilidade política

Taylor se formou em economia nos Estados Unidos e fez treinamento militar na Líbia antes de liderar a força revolucionária na Libéria em 1989. Um ano mais tarde, o então presidente do país Samuel Doe, cujo regime também foi acusado de frequentes abusos aos direitos humanos, foi torturado até a morte por forças leais a Prince Johnson, um senador na Libéria. "Nós lançamos a revolução para produzir a estabilidade no país", disse Taylor aos juízes.

 

Mas a morte de Doe mergulhou a Libéria em lutas internas ainda mais intensas e duraram até pouco tempo antes de Taylor ser eleito presidente em 1997. Ele é acusado de apoiar a RUF em Serra Leoa em sua luta para depor o presidente Joseph Momoh e seus sucessores. Os promotores disseram que Taylor treinou na Líbia com o líder da RUF, Foday Sankoh. Taylor, porém, disse que nunca conspirou com Sankoh para invadir Serra Leoa, que chamou de "aquele país amigável". Ele também negou ter ordenado aos rebeldes que cortassem as mãos de seus inimigos, a assinatura da atrocidade do conflito em Serra Leoa. "Está errado. Isso nunca aconteceu na Libéria. Eu nunca aceitaria isso na Libéria e nunca encorajaria isso em Serra Leoa", afirmou Taylor

Em 1999, rebeldes liberianos se insurgiram contra o governo Taylor, mas ele se conseguiu se manter no poder até 2003, quando foi expedido um mandado de prisão contra ele, que acabou se exilando na Nigéria. Depois de três anos de exílio, o ex-presidente acabou sendo extraditado de volta à Libéria em 2006. O julgamento na Corte Especial criada pelas Nações Unidas para Serra Leoa, em Freetown, capital do país, foi transferido em junho de 2007 para a Holanda, em meio a temores de que isso pudesse criar instabilidade no país e nos vizinhos da Libéria. Se for condenado à prisão, Taylor deve cumprir sentença na Grã-Bretanha.

 

Acusações

 

O indiciamento acusa Taylor de apoiar ou não impedir as seguintes ações cometidas pelos brutais rebeldes da Frente Revolucionária Unida (FRU) de Serra Leoa:

 

Punições - Aterrorizar civis, até mesmo com punições coletivas contra os que apoiaram o governo eleito de Serra Leoa ou contra os que não forneceram respaldo suficiente aos rebeldes da Frente Revolucionária Unida.

 

Massacres - Matança de civis. Segundo o indiciamento do Tribunal Especial da ONU, "as vítimas eram rotineiramente mortas a tiro, queimadas ou retalhadas".

 

Estupros - Violência sexual contra mulheres e meninas. Centenas de mulheres foram forçadas pelos rebeldes a serem escravas sexuais por vários anos, indicou o texto do indiciamento.

 

Amputações - Amplos atos de violência física contra civis, incluindo a amputação de membros e outras mutilações foram cometidos pelos rebeldes da FRU.

 

Recrutamento - Uso de crianças como soldados durante confrontos. Segundo o indiciamento, muitas crianças foram sequestradas e treinadas pelos rebeldes para se tornarem combatentes nas forças de Taylor.

 

Trabalho forçado - Escravidão de civis para forçá-los a trabalhar em serviços domésticos ou na mineração de diamantes - fonte de financiamento dos rebeldes de Serra Leoa.

 

Destruição - Saques e destruição de vilarejos.

 

Sequestros - Ataques armados contra soldados das forças de paz das Nações Unidas e trabalhadores de ajuda humanitária. Alguns soldados e trabalhadores foram assassinados e outros foram mantidos como reféns pelos rebeldes de Serra Leoa.

 

Texto atualizado às 13h20.

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