CARLOS GARCIA RAWLINS| REUTERS
CARLOS GARCIA RAWLINS| REUTERS

Ex-presidente do Chile é favorito para vencer eleição marcada pela imigração

Sebastián Piñera lidera pesquisas e tem chances de liquidar logo a disputa; esquerda sofre com popularidade baixa de Bachelet e chega às urnas dividida

Pablo Pereira, Enviado Especial / Santiago, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2017 | 05h00

O ex-presidente Sebastián Piñera (2010-2014) está próximo de voltar ao poder no Chile. Ele lidera as pesquisas com pouco mais de 40% das intenções de voto em uma campanha marcada pelo fluxo migratório, uma novidade no cenário político chileno, desacostumado à presença de tantos estrangeiros.

Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Chile foi o país latino-americano que proporcionalmente mais recebeu imigrantes. De 2010 a 2015, a população de imigrantes no país aumentou em média 4,9% ao ano, mais do que México (4,2%), Brasil (3,8%) e Equador (3,6%).

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Em 2010, 370 mil imigrantes viviam no país. Em 2015, eram 470 mil – um aumento de 27%. A crise econômica nos EUA, no México e na Espanha tornaram o Chile um lugar atraente para imigração. Também contribuem a estabilidade política e a solidez da economia, embora o PIB tenha crescido lentamente com a presidente Michelle Bachelet (1,5% em 2016), menos do que os 4% de 2013, último ano de Piñera.

 A chegada de imigrantes é uma novidade para o Chile, isolado do continente pela Cordilheira dos Andes e pelo Deserto do Atacama. Maior símbolo do conservadorismo chileno nos últimos anos, Piñera soube transformar o tema em votos. “Eu não sou xenófobo, mas é preciso ter bom senso. Não tenho por que aceitar qualquer pessoa que queira entrar no Chile”, disse em maio durante um ato de campanha em Antofagasta.

eu principal adversário nas eleições de hoje, o jornalista e senador Alejandro Guillier, da Força da Maioria, coalizão de centro-esquerda de Bachelet, acusou Piñera de fazer uso eleitoral do tema. Ele defende medidas de integração e políticas educacionais. Mesmo assim, ele elaborou no ano passado um projeto para acelerar expulsão de imigrantes condenados pela Justiça.

Guillier tem 23% das intenções de voto. Parece pouco, mas ele é seguido por uma miríade de candidatos de esquerda, entre eles Beatriz Sánchez (Frente Ampla), Carolina Goic (democrata cristã), Marco Enríquez-Ominami (socialista) que poderiam se aliar em uma aliança contra Piñera no segundo turno, dia 17 de dezembro. 

Imigração. Carlos “Chapo” Ávila fazia teatro de rua na Venezuela, vivia em Isla Margarita, onde escrevia textos de humor para um comediante e agora é vendedor em um mercado de Santiago. Há oito meses no país, ele vive na capital chilena com a mulher, Patrícia, fugindo da crise venezuelana.

Fã dos brasileiros Ayrton Senna, Roberto Carlos e Pelé, Ávila é parte do contingente crescente de imigrantes que buscam no Chile uma vida melhor. “Chapo” diz que vai acompanhar a votação de hoje pela TV. “Na Venezuela, as coisas vão muito mal. Não há comida, nem trabalho”, diz. “Estamos aqui no Chile por motivo de força maior.” Ávila se diz bem recebido pelos chilenos. O emprego dele no comércio, porém, foi dado por uma família de imigrantes hindus, que administram pequenos negócios na área central da cidade, região do Palácio La Moneda, sede do governo.

“A imigração é, sem dúvida, um tema presente no Chile, que esteve presente também na campanha”, afirma o cientista político Sérgio España, da Subjetiva Consultora, empresa que trabalha com análises de dados sociais, políticos e econômicos para um grupo de especialistas da Universidade Diego Portales, de Santiago. España lembra que, além dos hispano-americanos, há muitos imigrantes haitianos no Chile. Dados do governo mostram que eles já somam cerca de 160 mil, a imensa maioria é estigmatizada.

Para um funcionário do Ministério da Economia, que pediu anonimato, o preconceito contra os haitianos “é um absurdo”. Ele diz que “é falsa a ideia de que eles chegam ao Chile para delinquir”. Ele admite que há resistência de setores da sociedade, mas responsabiliza a polícia pela perseguição. “O que há é falta de informação e dificuldade de comunicação pelo idioma. Outro dia, prenderam uma haitiana e, como ela não conseguia se comunicar, bateram nela”, disse. “Esse Chile bonito, que é visto de fora, daqui não é bem assim.” 

Para Eduardo Rodrigues, chileno de 31 anos, engenheiro de TI, que trabalha próximo da área na qual vive o venezuelano Ávila, há sim gente que reclama da presença de “afrodescendentes no país”. Ele critica, mas argumenta que a população não estava acostumada com a presença de imigrantes negros nas ruas. “Acho um absurdo, mas há gente que faz isso, sim”, disse.

 

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