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Ex-presidente francês Nicolas Sarkozy será julgado por corrupção

Esta é a primeira vez em 60 anos que um ex-chefe de Estado vai ao tribunal por esse motivo

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2020 | 16h19

PARIS - O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy será julgado na segunda-feira, 23, em Paris por corrupção e tráfico de influência no chamado caso da escuta telefônica, tornando-se assim o primeiro ex-chefe de Estado a ser julgado por esse motivo em 60 anos.

O ex-presidente de 65 anos, que nega as acusações contra ele, prometeu que seria "combativo" no julgamento sem precedentes desde o estabelecimento da Quinta República em 1958.

Antes de Sarkozy, outro ex-presidente francês, Jacques Chirac (1995-2007), seu antecessor e durante anos seu mentor político, foi condenado a dois anos de prisão suspensa por peculato, mas sua saúde o impediu de comparecer ao tribunal.

O caso da "escuta telefônica" decorre de outro caso que ameaça Nicolas Sarkozy: suspeitas de que ele recebeu financiamento do regime líbio de Muammar Gaddafi durante a campanha presidencial de 2007 que o levou ao Eliseu.

Os juízes decidiram grampear o telefone do ex-presidente e  descobriram que ele tinha uma linha secreta na qual usava o pseudônimo de “Paul Bismuth”.

Segundo os investigadores, algumas das conversas que Sarkozy teve revelaram a existência de um pacto de corrupção. Junto com seu advogado, Thierry Herzog, Sarkozy teria tentado obter informações secretas de outra investigação por meio do juiz Gilbert Azibert.

Gilber Azibert também teria tentado influenciar seus colegas. Em troca, Sarkozy teria prometido ao magistrado ajudá-lo a conseguir um cargo altamente cobiçado no Conselho de Estado de Mônaco.

Se condenado, o ex-presidente pode pegar uma pena de prisão de até 10 anos e multa máxima de um milhão de euros.

Herzog e Azibert aparecerão ao lado de Sarkozy, também acusados de corrupção e tráfico de influência.

"Ele está trabalhando nisso", disse Herzog a Sarkozy em uma ligação no início de 2014.

Azibert já era considerado um dos principais candidatos ao cargo de Mônaco, mas "se você der um empurrão, é sempre melhor", diz Herzog em outra conversa.

"Vou promovê-lo", disse Sarkozy a Herzog, de acordo com a acusação. Mas, alguns dias depois, Sarkozy diz a seu advogado que não fará esse "movimento" com as autoridades monegascas.

Sinal, segundo os promotores, de que os dois homens souberam que a linha estava grampeada.

O ex-chefe de Estado se defendeu novamente na sexta-feira no canal de televisão BFM. "O senhor Azibert nunca obteve um cargo em Mônaco. O Palácio de Mônaco publicou uma declaração dizendo que 'Nicolas Sarkozy não interveio' e todos os magistrados interrogados disseram que o senhor Azibert não interveio '".

O crime de corrupção pode consistir em simples ofertas ou promessas.

"Vou me explicar ao tribunal porque sempre enfrentei minhas obrigações", acrescentou. E garantiu: "Não sou corrupto."

Nicolas Sarkozy, advogado de formação, há muito acusa os tribunais franceses de tentarem uma vingança contra ele.

Ele retornará ao tribunal em março de 2021 junto com outras 13 pessoas pelo suposto financiamento irregular de sua campanha para as eleições presidenciais de 2012.

A promotoria acusa a equipe de Sarkozy de usar um esquema de fatura falsa orquestrado pela empresa de relações públicas Bygmalion para gastar cerca de 43 milhões de euros na campanha, quase o dobro do limite legal.

Seus numerosos problemas jurídicos dificultaram seu retorno à política. Ele perdeu como candidato de direita para seu ex-primeiro-ministro François Fillon em 2016.

No entanto, como outros ex-presidentes franceses, Sarkozy desfrutou de grande popularidade desde o anúncio de sua aposentadoria da política em 2018.

 

Centenas de fãs fizeram fila nas livrarias neste verão para que ele assinasse uma cópia de suas memórias mais recentes, The Time of Storms, que liderou a lista de best-sellers por semanas. /AFP

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