'Ex-presidente será forçada a mudanças mais profundas'

Para a senadora socialista Isabel Allende, filha do líder deposto em 1973, chilenos exigirão mais do vencedor desta eleição

Entrevista com

SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h10

Sobre a porta da casa branca dos Allendes, numa rua estreita do bairro nobre de Providência, em Santiago, um cartaz promove a candidatura a deputada de Maya Fernández Allende. A foto da neta do presidente deposto em 1973 por Augusto Pinochet é o único sinal externo da presença do clã. Dentro, as referências são mais claras, com fotos e objetos que lembram Salvador Allende. Ali, a primeira parente do presidente deposto a enveredar pela política, a senadora Isabel Allende, tia de Maya, recebeu o Estado. A senadora representa Copiapó, cidade conhecida por abrigar a mina em que 33 trabalhadores ficaram presos por dois meses em 2010.

São 40 anos do golpe que derrubou seu pai, 25 anos do plebiscito que tirou Augusto Pinochet do poder. Essa é uma eleição com mais carga ideológica que as anteriores?

É a primeira eleição em esfera presidencial e parlamentar com voto opcional. Nunca houve tantos candidatos. Pelo menos seis deles são considerados radicais, por querer uma mudança mais profunda. Isso ocorre no marco dos 40 anos do golpe, o que tem sido forte. Há muitos documentários, recuperação de imagens... E declarações do presidente Sebastián Piñera, que disse ter sido um erro o voto pelo "sim", para que Pinochet permanecesse no poder (em 1998). Isso tudo coloca a direita numa situação muito difícil, principalmente na eleição presidencial. Para o Parlamento é mais complexo, pois temos um sistema eleitoral difícil (o sistema estimula a eleição de legendas antagônicas, diminuindo a possibilidade de uma ampla maioria). Todo mundo sabe que Michelle Bachelet vai ganhar, não se sabe se em primeiro ou segundo turno.

Surpreende a distância entre as propostas?

Ela fala de uma educação gratuita, obtida gradualmente em seis anos. Aqui o ensino superior é pago e é muito caro. Brasil, Argentina e Uruguai têm universidades gratuitas, o que faz com os jovens daqui o exijam. Evelyn Matthei (candidata conservadora) não acredita nisso. Bachelet quer reforma tributária para financiar a educacional, Matthei diz que não, que isso vai afastar investidores. Ou seja, são dois modelos de sociedade diferentes.

Vem aí uma Bachelet mais à esquerda, em relação ao primeiro mandato? The Economist diz que "desta vez" ela vai levar o Chile para a centro-esquerda.

Ela está obrigada a mudanças mais profundas. Educação gratuita é algo muito profundo. A reforma tributária para conseguir mais 3 pontos no PIB, também. Ela também quer nova Constituição, já deixou claro que quer mudá-la, embora não saibamos como.

Por que não fez tudo isso no primeiro mandato?

Faltaram algumas vezes votos, em outras, percepção adequada. As sociedades amadurecem. As pessoas evoluíram muito. Já aceitam a união informal entre casais, outros já aceitam o matrimônio igualitário entre, digamos, casais homossexuais. Eram temas impossíveis de discutir.

A sra. representa Copiapó, uma região rica em minerais, mas que enfrenta mais problemas de desigualdade que outros pontos do país. As mudanças propostas por Bachelet ajudarão a mudar cenários como esse?

A região sente que contribui com mais do que recebe. Ficamos com os resíduos ambientais sem compensação. Mas é preciso diferenciar a grande mineração, onde há um alto nível tecnológico e de cobertura, da pequena mineração.

Haverá uma trégua dos movimentos sociais a Bachelet?

Os estudantes e os jovens estão decepcionados com a política e muitos se sentem distantes de Bachelet, porque acreditam que ela ainda mantém em sua coalizão partidos tradicionais. Tomara que consigamos fazer essas mudanças. / R.C.

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