Yasuyoshi CHIBA / AFP
Yasuyoshi CHIBA / AFP

Ex-presidentes latinos defendem economia verde e pedem cooperação internacional

Líderes da América Latina propuseram maior unidade regional e reconstrução com base em objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2020 | 14h24

Ex-presidentes de países da América Latina e líderes da área ambiental defenderam nesta quinta-feira, 3, que os investimentos na reconstrução das economias dos países da região devem priorizar os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) das Nações Unidas. As declarações foram dadas em seminário online organizado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU). 

Na avaliação das autoridades, é crucial que as políticas públicas levem em conta a proteção do meio ambiente e busquem um novo paradigma de economia mais inclusivo e menos predatório. Nesse novo cenário, a maior cooperação entre os países - e o multilateralismo - devem ser fortalecidos, o que poderia resultar na criação de pelo menos 15 milhões de empregos nos próximos anos. 

"Precisamos de um desenvolvimento diferente do que aquele que foi até ontem", resumiu o ex-presidente do Chile Ricardo Lagos, ao defender que os investimentos futuros tenham como alvo o cumprimento de alguns dos ODS. "Devemos ser capazes de reativar nossa economia com investimentos necessários para atender esses objetivos". 

Lagos lembrou que a agricultura e a silvicultura emitem 45% dos gases de efeito estufa da região e defendeu que o número chegue a 36% até 2030. O chileno disse que não importa se os políticos são de esquerda, direita ou centro, e que é possível construir um novo sentido de identidade para a região. Para ele, os países latinos teriam mais sucesso em terem suas vozes ouvidas no sistema internacional se atuassem em grupo. 

Os objetivos de desenvolvimento sustentável foram definidos pela ONU em 2015 com a participação de seus 193 países-membros para combater a pobreza, reduzir a desigualdade, promover uma gestão pública mais eficiente e gerir adequadamente os recursos naturais. Redução da fome, adaptação às mudanças climáticas e minimização da desigualdade de gênero também são algumas das metas da chamada Agenda 2030. 

Na prática, essas metas servem como um guia, mas não são obrigatórias. Ex-presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos afirmou que é preciso respeitar as diferenças entre os recursos disponíveis nos países. Destacou que o setor empresarial e vários governos têm problemas com suas dívidas e que é necessário afastar o fantasma de uma nova crise financeira que dificultaria a recuperação econômica. 

"A cooperação internacional e o multilateralismo, hoje sob ataque, são mais necessários do que nunca", afirmou Santos, dizendo que falta liderança na região da América Latina. "Precisamos deixar de lado os preconceitos e ver como vamos sair dessa situação como região, o que também nos leva a mudar o modelo tradicional de desenvolvimento". Para Santos, é preciso redefinir o significado de progresso, priorizando o crescimento sustentável e a adoção de novas métricas. 

O colombiano defendeu o papel da juventude para pressionar permanentemente os governos a caminharem nesta linha e terem "vontade política". "Os objetivos de desenvolvimento sustentável são como anéis nos dedos nessa situação: cada país pode escolher o que mais lhe convém e mais necessita".  

Dificuldades e experiências

Ex-presidente do México, Ernesto Zedillo reconheceu as dificuldades de conciliar desenvolvimento e sustentabilidade, já que ainda há poucos incentivos para a economia verde, mas defendeu a redução de subsídios ao consumo de energia com base em hidrocarbonetos. "Precisamos impulsionar concretamente uma ideia que já é realidade em algumas partes (do mundo)". Sugeriu, também, colocar um imposto nas emissões de carbono para desestimulá-las com o tempo. 

A ex-ministra do Meio Ambiente do Brasil Marina Silva afirmou que os países da região já têm arcabouço jurídico, político e institucional para tomar decisões rumo à construção de uma economia de baixo carbono. "O grande problema é o baixo nível de implementação", avaliou. Em sua fala, destacou exemplos já em curso no Brasil, como a produção de açaí na Amazônia, que emprega 300 mil pessoas, e o programa de agricultura de baixo carbono, que reduziu em mais de 100 milhões de 154 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. 

"A nova economia que ouve a comunidade científica mas também as populações tradicionais e que tem aliança intergeracional com nossa juventude já é uma realidade possível". Yolanda Kakabadse, ex-ministra do Meio ambiente do Equador também defendeu o aproveitamento correto da bioeconomia da Amazônia, cuja biodiversidade se estende por 9 países da América Latina.

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