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Ex-presos de Guantánamo foram convertidos quase em vegetais, diz Mujica

Uruguai recebeu em dezembro quatro sírios, um palestino e um tunisiano como parte do plano do presidente Obama de distribuir os prisioneiros na tentativa de fechar a penitenciária onde centenas suspeitos de terem ligação com a Al-Qaeda

O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2015 | 06h00

MONTEVIDÉU - Os presos de Guantánamo que receberam refúgio no Uruguai foram convertidos quase em vegetais depois de terem sido submetidos ao isolamento na prisão americana em Cuba, disse nesta quarta-feira, 25, o presidente uruguaio, José Mujica.

O Uruguai recebeu em dezembro quatro sírios, um palestino e um tunisiano como parte do plano do presidente americano, Barack Obama, de distribuir os prisioneiros na tentativa de fechar a penitenciária onde centenas suspeitos de terem ligação com a Al-Qaeda ficaram presos, muitos deles sem processo legal.

Os seis ex-presos muçulmanos foram alojados numa casa num bairro popular de Montevidéu, receberam dezenas de ofertas de emprego e aulas de espanhol, mas todos concordam que ainda não estão em condições de trabalhar e outro exige uma compensação dos Estados Unidos. "São pessoas que estão destruídas", disse Mujica, um ex-guerrilheiro de 79 anos que gosta de quebrar o protocolo, em entrevista à agência Reuters. "Pegaram eles numa etapa jovem da vida e mataram mantendo-os presos."


Com a ajuda de uma entidade internacional, Mujica, que entregará o cargo ao colega de partido Tabaré Vázquez no domingo, garantiu que o Uruguai dará apoio econômico aos ex-presos. Contudo, acredita que mesmo sendo instruídos durante anos, os esforços não vão dar muitos frutos. "Falta neles o fogo interior, o afã de lutar pela vida, transformaram eles meio que em vegetais", disse Mujica.

Um dos ex-réus que já tem passaporte pediu para deixar o país sul-americano. "Estamos vendo em alguma embaixada de algum país árabe que o receba", afirmou.

A presença dos ex-presos deixou muitos uruguaios preocupados, no princípio, com a segurança, assim como aconteceu com a controversa iniciativa de Mujica de legalizar a produção, venda e consumo de maconha.

Seu sucessor tem se mostrado cauteloso com a iniciativa sobre a maconha e disse que tomará todas as precauções para que o projeto não afete a segurança pública.

A proposta, que pretende se tornar uma alternativa para combater o tráfico de drogas, ganhou as páginas dos jornais no mundo todo, mas ainda não foi totalmente aplicada pela falta de precedentes, o que tem complicado colocar as ideias em prática.

Mujica disse que o maior desafio para o sucesso da iniciativa de legalização pioneira é estabelecer um preço de venda de maconha que seja justo e menor ao do mercado paralelo.

"O obstáculo pode estar na relação de preços, para que chegue ao consumidor a um preço aceitável e que seja bom", disse ele à Reuters no seu modesto sítio localizado na periferia de Montevidéu. "Os produtores vão tentar ganhar mais dinheiro, como em qualquer negócio."

A experiência do Uruguai é acompanhada de perto por diferentes países do mundo e da própria região, que procuram novas alternativas para lutar contra as drogas depois de anos de combates frontais que não acabaram com o flagelo.

Mujica fez um balanço do seu governo e não se considerou um bom presidente. Apesar de conseguir estabilizar a economia e reduzir a pobreza com programas sociais, não freou a deterioração da educação, nem o avanço da insegurança."É provável que seja um agitador. Outros virão e o farão melhor", disse.

Vizinhos. Mujica garante que a região conseguiu uma ampla integração em termos políticos, mas nem sempre nos comerciais. E neste sentido destacou a vizinha Argentina, um dos seus principais países parceiros.

"A Argentina teria que se preocupar com seus problemas internos, mas também para o bairro. Não pode tratar o bairro como trata o resto do mundo, essa é a diferença", disse o presidente, referindo-se às restrições comerciais argentinas que reduziram as exportações uruguaias ao país em 15 %nos últimos anos.

"Tem todo o direito de priorizar sua visão interna. Agora, considero que a visão interna é o Mercosul", acrescentou ele sobre o bloco comercial integrado também por Argentina, Brasil, Paraguai e Venezuela.

Mujica disse estar muito atento à crise na Venezuela e o governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que enfrenta uma queda na popularidade em meio a uma recessão econômica./ REUTERS 

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