Ex-prisioneiros de Cuba reclamam de governo espanhol

Os 11 dissidentes cubanos que chegaram na semana passada a Madri se disseram "enganados" pelo governo espanhol, ao qual acusaram nesta segunda-feira de não cumprir seus compromissos. Julio César Gálvez, um dos ex-presos políticos libertados por causa do acordo entre o governo de Cuba e a Igreja Católica, disse que o grupo deixou de receber assessoria burocrática das autoridades espanholas e que segue sem ter claro o seu futuro.

AE-AP, Agência Estado

19 de julho de 2010 | 16h23

"Nós tínhamos firmado alguns compromissos na frente de um funcionário da Embaixada da Espanha em Havana", disse Gálvez a jornalistas, no hotel madrilenho onde os dissidentes estão hospedados com suas famílias, cerca de 70 pessoas no total. "A primeira coisa que deixamos de receber (do governo espanhol) foi o assessoramento jurídico".

Três organizações sociais se encarregaram da manutenção, alojamento e busca de empregos para as pessoas do grupo até que a situação legal delas seja resolvida na Espanha. Em princípio, o governo espanhol disse que concederá permissões de trabalho e residência aos exilados, embora não o status de refugiado político, uma condição que alguns deles desejam reclamar. À espera da solução dos trâmites burocráticos, os cubanos vivem num hotel na periferia de Madri, no coração de um bairro operário sem comércio nem lojas por perto. A alguns dos dissidentes foi oferecida a possibilidade de ir viver em outra cidade espanhola, mas a maioria prefere permanecer em Madri. Outros manifestaram a vontade de ir embora para os Estados Unidos, onde têm parentes que vivem em Miami.

Além disso, Gálvez leu uma declaração conjunta dos 11 dissidentes, na qual eles expressam o rechaço à modificação da chamada "Posição Comum" da União Europeia, defendida pela Espanha. Esta política, em curso desde 1996, condiciona as relações plenas entre Bruxelas e Havana a mudanças no sistema político comunista da ilha. "O governo cubano não deu passos que evidenciem uma decisão clara de avançar em direção à democratização do nosso país", afirmaram. "Nossa saída para a Espanha não pode ser considerada um gesto de boa vontade, mas uma busca desesperada do governo cubano por credibilidade de qualquer tipo", afirmaram.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, elogiou as libertações, mas pediu um compromisso maior do governo de Raúl Castro com os direitos humanos. Os 11 dissidentes que puderam partir para a Espanha fazem parte do chamado "Grupo dos 75", preso em 2003, que Cuba se comprometeu a libertar no prazo de três a quatro meses, em seguida a um acordo fechado com a Igreja Católica. O governo espanhol, que participa do diálogo, se ofereceu para receber os presos que desejem sair da ilha. No final de semana passado, o chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos, anunciou que outros 9 dissidentes cubanos chegarão à Espanha na terça-feira, com o que serão 20 os dissidentes no país ibérico.

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