AP Photo/Marco Ugarte
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Ex-procuradora da Venezuela acusa Odebrecht de se esforçar para esconder provas

Ao 'Estado', Luisa Ortega Díaz afirmou que ação da construtura no STF pedindo que ela seja impedida de divulgar informações sigilosas 'não é coerente com os compromissos' assumidos pela empresa com a Justiça

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2017 | 12h07
Atualizado 19 Outubro 2017 | 21h25

GENEBRA - A ex-procuradora-geral da Venezuela Luisa Ortega Díaz, acusou a Odebrecht de concentrar seus esforços para esconder da opinião pública sua corrupção no governo venezuelano de Nicolas Maduro. Em declarações exclusivas ao Estado nesta quinta-feira, 19, ela rebate a ação da construtora brasileira no Supremo Tribunal Federal e diz que tem a obrigação de publicar as provas contra a empresa. 

A Odebrecht entrou com uma reclamação no STF, pedindo que a ex-procuradora seja impedida de divulgar informações sigilosas da delação da empresa e devolva todos os materiais que ainda possui e estão protegidos por segredo de justiça.

Ortega divulgou neste mês, em sua conta no Twitter, vídeo da delação do executivo Euzenando Azevedo. Em depoimento à PGR, ele fala sobre um pagamento acertado de US$ 35 milhões para a campanha de Nicolás Maduro. Ao Estado, a ex-procuradora afirmou que iniciaria uma série de publicações de dados sobre a corrupção no governo Maduro.  

"O que a Odebrecht anunciou é lamentável", disse Ortega. "Mostra uma falta transparência, o que pareceria persistir em suas práticas a favor da corrupção", acusou. "Parte de seu compromisso diante da Justiça era a de apresentar tudo o que fosse necessário para erradicar esse mal nos países onde operou."

"Essa ação (no STF) não é coerente com nenhum desses compromissos, pretende atacar quem mostra ao mundo sua corruptela, no lugar de facilitar a obtenção da Justiça em todos os países da região e de todo o mundo", atacou a ex-procuradora. 

"É curioso como esta empresa centra todos seus esforços em não deixar que sejam divulgadas as provas da corrupção de sua organização na Venezuela e, pelo contrário, promove a inação da Justiça em relação a Nicolás Maduro e seus companheiros criminosos", afirmou Ortega. 

"É necessário que a opinião pública mundial saiba que a publicação da declaração do presidente da Odebrecht na Venezuela, Euzenando Azevedo, ante à Procuradoria-Geral do Brasil, é um dever que me impõe a lei venezuelana", disse.

"Todos os venezuelanos foram vítimas do desfalque e da corrupção dos governantes e, por isso, tem o direito de saber quem está vinculado a este escandaloso caso Odebrecht e como o fizeram", explicou Ortega ao justificar a divulgação do vídeo em sua rede social. "Eu cedi as provas e a ação investigativa ao Ministério Público brasileiro, que agora tem a possibilidade histórica de processar os responsáveis desses fatos."

"Na Venezuela, não há atualmente possibilidade de justiça. Há tal nível de caos institucional, que são os mesmos delinquentes apontados nesse caso os que assaltaram o poder e tem o controle total dos organismos jurisdicionais", acusou. 

Resposta

Em resposta, a Odebrecht diz que segue colaborando com a Justiça no Brasil e nos países em que atua, que o acordo de colaboração já se provou eficaz. “Ao contrário do afirmado em entrevista, a ex-promotora venezuelana sabe que o sigilo das informações fornecidas pela empresa no processo de colaboração foi determinado pelo STF – e não pela Odebrecht –, e sua violação é não só uma óbvia ilegalidade, como também uma afronta à autoridade da corte máxima do Brasil”, disse a empreiteira em nota.

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