Roberto Simon/AE
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Ex-refém do Hamas entra em campo no Brasil

Israelense Gilad Shalit, que após 5 anos de cativeiro foi trocado por 1.027 presos palestinos, esteve discretamente em São Paulo na última semana atrás de seu fanatismo: o futebol

Roberto Simon - O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h05

Os visitantes do Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, nem sonhavam que o garoto franzino, óculos desalinhados e camisa polo, batendo um pênalti virtual naquela manhã de terça-feira era, na verdade, o soldado israelense trocado por 1.027 presos palestinos, em 2011, após passar cinco anos no cativeiro na Faixa de Gaza. Mas o gol era dele, Gilad Shalit.

Personagem principal em uma histórica barganha entre Israel e a facção palestina Hamas, Shalit, hoje com 26 anos, esteve discretamente pela primeira vez no Brasil na semana passada. O motivo da viagem foi seu fanatismo pelo futebol. Ele assistiu à final entre Corinthians e Santos, na Vila Belmiro, incógnito, acompanhado de um amigo de infância, alguns seguranças à paisana e assessores. No museu em São Paulo, ao ver a foto da seleção brasileira de 2010, começou a escalar em voz alta a equipe, apontando para os jogadores ("Adriano, Kaká, Robinho, Júlio César...").

Questionado sobre como conhece tanto daquela seleção do Brasil, eliminada nas quartas de final, Shalit explica que acompanhou, do subterrâneo de Gaza, todos os jogos do mundial na África do Sul. Os militantes da unidade de elite do Hamas que o escondiam da inteligência israelense instalaram uma pequena televisão no quarto sem luz natural onde ele ficava trancado.

"O futebol era o jeito de eu manter contato com o mundo exterior. Me fazia muito bem, claro, eu amo futebol. Conversava com os meus captores sobre os jogos, as seleções, os jogadores. Era o mundo lá fora", explicou ao Estado, falando em inglês, sempre baixo e pausadamente. "Eu acho que futebol representava minha possível liberdade", resume.

Ao saber que Shalit viria ao Brasil, a reportagem fez vários pedidos de entrevista, todos rejeitados. Ele não queria agendar uma conversa tête-à-tête com um repórter. A contraproposta foi acompanhá-lo em uma visita ao museu interativo no Estádio do Pacaembu, e o assunto seria o futebol e, por tabela, sua liberdade.

Arredio, com um sorriso de timidez pendurado o tempo inteiro no rosto, Shalit fala pouco sobre a parte de sua juventude - dos 19 aos 25 anos - que passou sob a mira de fuzis do Hamas, como o mais precioso troféu do grupo. Em 2006, no serviço militar obrigatório, ele fazia guarda dentro de um tanque perto de Gaza quando militantes palestinos que haviam atravessado a fronteira por um túnel dispararam contra o blindado. Dois soldados israelenses morreram na hora, outros dois ficaram feridos e, em meio às chamas, o cabo do Exército saiu do veículo e acabou levado ao território palestino, onde permaneceria até outubro de 2011.

Pela TV instalada em sua cela, ele diz ter torcido pelo Brasil e lamentado a derrota contra a Holanda, que custou a eliminação. "Depois, passei a assistir com eles (seus captores) programas de notícias em árabe e outras coisas", relembra. "Quase tudo na minha vida girava em torno daquela televisão."

Após anos de uma intensa campanha internacional de seus pais e amigos, e de tensas negociações entre o governo israelense e líderes do Hamas, chegou-se a um acordo de troca de Shalit por palestinos em prisões de Israel (alguns atrás das grades havia décadas). Quando foi solto, magro e com dentes podres, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu perguntou-lhe o que gostaria de fazer. Shalit podia escolher o que quisesse e a resposta foi: comentarista esportivo.

O jovem chegou a escrever artigos sobre futebol para o jornal popular Yedioth Ahronoth. Mas a carreira está suspensa, ao menos temporariamente, pois ele iniciará, no segundo semestre, estudos na área de economia e desenvolvimento sustentável. "Também quis vir para o Brasil em razão disso. As florestas, o crescimento do país, isso tudo me interessa."

Em um país altamente militarizado, onde a passagem pelas Forças Armadas é uma etapa "normal" na vida dos jovens, Shalit transformou-se em uma espécie de filho de todos os israelenses. Até ser libertado, adesivos com sua imagem cobriam postes e letreiros. Virou livro e música. Israelenses comuns sentiam-se, e ainda se sentem, pessoalmente ligados a ele.

O acordo de troca de prisioneiros - 1 por 1.027 - foi um dos poucos momentos, na história do conflito, em que houve festa ao mesmo temo em Israel e nos territórios palestinos. Mas, politicamente, o triunfo foi do Hamas, que obrigou o poderoso Exército israelense a fazer uma concessão inédita.

Camisa 10. Entre os vídeos do museu, o que Shalit mais gostou foi o do show de Roberto Rivellino no amistoso entre Fluminense e Corinthians, em 1975, quando o ex-corintiano marcou três dos quatro gols pelo time carioca na vitória por 4x1. Ele também ficou impressionado com a camisa 10 de algodão que Pelé vestiu na Copa de 1970, exposta em uma das galerias no Pacaembu. "Imagine o calor usando isso no México."

Cicatrizes da emboscada em 2006 marcam a parte superior de seu braço esquerdo e o jovem israelense tem um aspecto frágil (embora seu chute no pênalti virtual do museu tenha alcançado respeitáveis 78 km/h). Shalit permanece quase o tempo todo em silêncio, sorrindo.

"Eu acho que essa experiência mudou ele, sim. E para melhor", afirma seu amigo de infância Noam Rotem, universitário de 25 anos de piercing na orelha que o acompanhou na visita ao Brasil. "Gilad sempre foi muito tímido e, depois de tudo o que aconteceu, acabou obrigado a falar pelo menos um pouquinho mais com as pessoas."

Quase da mesma idade, os dois eram vizinhos na pequena cidade de Mitzpe Hila, no extremo norte de Israel, perto da fronteira com o Líbano. Começaram juntos o serviço militar obrigatório; Shalit na unidade de tanques e Rotem, de infantaria.

O amigo lembra com detalhes do momento em que recebeu a informação de que Shalit havia sido capturado e levado para Gaza, em 2006, na emboscada de guerrilheiros do Hamas e de outros movimentos radicais palestinos. "Você imagina que, dentro de um tanque, ele está seguro. E Gilad? Tímido daquele jeito? Não fazia o menor sentido."

A presença pública de Shalit no exterior nunca é livre de controvérsia. Quando foi flagrado na tribuna de honra do Barcelona num jogo contra o Real Madrid, em setembro, manifestantes palestinos queimaram em Gaza bandeiras do clube catalão. No protesto, organizaram também uma pelada de cinco contra cinco entre presos que haviam sido trocados pelo cabo israelense.

Na final na Vila Belmiro, ninguém o reconheceu. A preocupação de Shalit, porém, era outra: ele ficou "muito frustrado" com a fraca atuação de Neymar.

Israelense Gilad Shalit, que após 5 anos de cativeiro foi trocado por 1.027 presos palestinos, esteve discretamente em São Paulo na última semana atrás de seu fanatismo: o futebol

Pela TV

"(Em Gaza) o futebol era o jeito de eu manter contato com o mundo exterior. Era a possível liberdade"

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